Regata chega a sua etapa mais curta
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Salvador, 18 (AE) - Começa hoje a quarta, penúltima, decisiva e mais curta perna da Regata do Descobrimento - 200 milhas (370 quilômetros) entre Salvador e Cabrália. Enquanto o Marujo vai tentar manter a liderança, o Viva, única chance de vitória brasileira, precisa vencer se quiser ter chance. Mas a tripulação se desfez na hora decisiva. Como pano de fundo para essa disputa, muito mistério, acusações e ameaças. A reportagem da AE segue para o sul da Bahia a bordo do navio-veleiro Cisne Branco, da Marinha, com patrocínio do Banco Bandeirantes.
Ganha a regata quem tiver menos pontos no final. Por enquanto, o Marujo lidera com cinco e o Mariposa vem logo atrás, com sete - ambos são portugueses. O Viva, com oito, precisa não só ganhar como esperar que o Marujo não fique em segundo. Torcer contra o Marujo talvez não seja o problema. Mas ganhar do Mariposa vai ser uma tarefa árdua. O Papa Léguas não tem mais chance.
O Marujo não é um veleiro bom de orça (cálculo de guinada), não anda bem contra-vento. É bom com o vento na popa. E deve ter problemas daqui de Salvador para baixo, com o vento soprando provavelmente de sudeste e leste. O tripulante Horácio Basílio não quis adiantar nada em relação à estratégia a ser usada: "Vamos apostar o máximo nessa perna. Não vou dizer como agora. Lá embaixo, eu digo." Daqui para a frente, com a regata acompanhando a costa, não deve haver grandes diferenças em termos de estratégia, ao contrário da travessia do Atlântico.
O Mariposa, que vem de uma vitória na maior e mais complicada perna, entre Cabo Verde e Salvador, parece estar em boa situação. "O contra-vento para nós é ideal", afirma Júlio César Oliveira, o Juca.
Mas Miguel Lacerda também não adianta a tática: "Vamos gastar tudo nessa pernada, com muita dedicação, atenção, aproveitando bem as correntes..." Só obviedades.
A única tática que o Mariposa revela é uma que vai contra o regulamento: não passar mais a posição pelo rádio. "Mentir, nós não mentimos. E tinha barcos mentindo", acusa Juca, que não quis dar nomes aos personagens. Mas Miguel deu: "O Viva deu a posição errada. Isso é mil vezes pior que não dar." Ele sabe que o regulamento obriga a dar a posição, sob pena de desclassificação, mas não acredita que isso possa de fato ser feito, por ser difícil provar: "Posso dizer que a comunicação está ruim, que estava fazendo uma manobra na hora da tomada de posições." Miguel afirma que durante a travessia, o Viva aproveitou o fato de saber a posição do Mariposa para segui-lo.
Pedro Paulo Couto, comandante do Viva, nega tudo. E critica quem vai se esconder: "Acho um erro não passar posição, atrapalha a divulgação da regata." No entanto, admite que é contra fornecer o rumo e a condição do vento. Pedro cita também a questão da segurança: "Você vai desperdiçar o apoio de dois navios de guerra?" No caso, o Cisne Branco e o português Sagres
que diariamente tomam as posições de todos os veleiros: "O que faz o barco andar é velejar bem, não é esconder a posição." Com o velho discurso de que a regata só termina quando acaba, Pedro diz ter ainda esperança de ganhar. E diz ter negado a seus tripulantes a sugestão de uma parada de confraternização em Camamu, como muitos barcos vão fazer: "Eu disse não. Quando entro no campeonato, é pra valer." Para vencer as duas pernas que faltam, Pedro vai precisar de um rápido entrosamento com três tripulantes novos que vieram substituir outros que abandonaram o barco.
Segundo o que se ouve nos bastidores, eles não aguentaram o jeito de ser do comandante, muito meticuloso, chato mesmo. Pedro garante que não houve desentendimentos a bordo, mas seus depoimentos fazem os pontos se ligarem: "Eu avisei que era pra correr regata. Eles não são regateiros e se meteram a correr regata." De maneira geral, o relacionamento entre os participantes da viagem está ótimo. Mas entre a minoria que disputa mesmo a regata, nem sempre o clima é amigável. Julio Cruz Neto


