Entre as seculares ruelas de pedras e casarões brancos de janelas coloridas, 40 equipes largavam num intenso rali nos arredores da histórica e pitoresca cidade de Paraty, litoral sul do estado do Rio de Janeiro. Sem descanso, os atletas disputavam, numa alucinante corrida, a segunda etapa do Reebok Swatch Ecomotion Circuit sobre as exuberantes paisagens da Serra do Mar e a paradisíaca Baía de Paraty. Pouco a pouco íngremes e enlameadas trilhas, escorregadias cachoeiras e distâncias intermináveis no mar íam ficando para trás.
Foram mais de 100 quilômetros percorridos em várias aventuras: mountain bike, trekking, orientação, natação com auxílio de pranchas de bodyboard, um mergulho de apnéia e canoagem nas exóticas canoas caiçaras. A prova, que teve inicio às 9h30 de sábado, durou 14 horas para Rafael Reyes, Kiko e Marina Verdini, da equipe vencedora Coolmax, e mais de 22 para os últimos guerreiros que chegavam por volta do meio-dia da seguinte manhã. Todas as equipes passaram pela escuridão da mata fechada, por trilhas escabrosas: ‘‘Sem luz a estória é outra! Por sorte conseguimos passar de dia o trecho mais difícil, das ladeiras de lama. Quando caiu a noite já estávamos descendo por uma estrada mais aberta, sem bifurcações, e sabíamos que acabaríamos num campinho de futebol’’, relata Marina lembrando do infortúnio das demais equipes que passaram a noite inteira perdidos na serra. Doze grupos não completaram a prova.
Espírito de equipe
De nada vale que um dos integrantes chegue horas à frente do resto da equipe. O grupo deve completar a prova unido. Se um atleta se perder, se machucar e abandonar a corrida, a equipe não marca pontos e é desclassificada. O espírito de coletivismo é posto à prova. Em condições de extremo esforço físico, o fator psicológico assume as rédeas de cada equipe. ‘‘Broncas injustas ou justas, sono, fome, dor, cansaço, frio, calor, relação homem mulher nesta lambança toda... Tudo em meio a um ambiente hostil, no mato. As adversidades devem ser friamente assimiladas e resolvidas pelos atletas. Não basta ter resistência física e dominar as técnicas de cada modalidade esportiva, é preciso harmonia e muita paciência com o resto da equipe’’, ensina o Dr. Clemar Correia da Silva, responsável pela equipe médica que acompanhou o enduro, com experiência em oito edições do Rali dos Sertões, um dos quatro maiores do mundo.
A estratégia de cada grupo participante determina muito o resultado final da corrida. As equipes receberam quatro horas antes da largada, às 5 da matina, o mapa da região indicando através das coordenadas onde deveriam passar. Os chamados PCs (postos de controle) estavam marcados no mapa e as equipes obrigatoriamente teriam que passar por eles, não importando o caminho adotado. Durante o percurso, apreciava-se a apreensão dos competidores decifrando as trilhas a serem seguidas, estudando bússolas, medindo mapas, e até fazendo perguntas aos camponeses locais.
‘‘Tá todo mundo errando...’’
‘‘Tá todo mundo errando...’’, divertia-se o diretor de prova Said Aiach Neto nos primeiros quilômetros do evento. Os atletas corriam de Bike’n Run, dois na bike e um à pé, pelo asfalto da BR 101 e passavam direto pela trilha na beira da estrada. Esta primeira etapa terminava no Casarão do Engenho da Boa Vista, que mais tarde serviria de chegada final da competição. O local foi marcado para o AT1, área de transição, onde os atletas trocam de modalidade, neste caso, para o nado com ajuda de pranchas de bodyboard. Teriam que chegar ao PC 4, na Ilha da Bexiga, e localizar uma placa, submersa a uns quaro metros, ler o que estava escrito e retornar à praia, no PC 5, e dizer aos fiscais o que estava escrito.
De lá partiram para um leve trekking, atravessando um morro com uma bifurcação que enganou a maioria, chegando no ponto mais esperado da prova: a praia onde encontrariam as canoas caiçaras. Seu Ditinho Cirandeiro, com seus 61 anos, se surpreende com a determinação dos atletas: ‘‘Estou sentindo firmeza na rapaziada. Eles entenderam muito bem como as canoas funcionam, mas as caiçaras não são todas iguais, têm diferentes tamanhos. As menores exigem mais sacrifício...’’, explicando a fabricação artesanal das caiçaras: ‘‘Corta-se a árvore e cava-se manualmente o tronco até ter a forma desejada. De um único tronco pode se construir até três canoas.’’ As caiçaras tem origem indígena. Seu Ditinho jura que a dele tem mais de 90 anos... Com a proibção do corte de árvores, em nome da preservação da Mata Atlântica, seu Ditinho dedica-se agora à música, realizando shows com sua banda e sua viola de dez cordas.
A remada, que consistiu num trecho de aproximadamente 12 quilômetros, dando a volta na Ilha da Cutia, algumas canoas não aguentaram o tranco e começaram a apresentar vazamentos: três equipes afundaram até o pescoço... O vento sudoeste, que traz tempestade, entrou, mas felizmente, estava fraco. Igualmente dificultava a remada e ajudava a desequilibrar as instáveis embarcações.
O trecho mais duro da prova ficou por conta da temível subida, sob o sol da meia tarde, em que as equipes podiam optar pelas bikes ou pelo trekking. A grande maioria escolheu pelas bicicletas, opção que rendeu muito arrependimento: ‘‘A subida para o posto 9 foi descomunal. O empurra-bike foi muito desgastante!’’,, desabafa Marine, que justamente após esse trecho, na descida, machucou a córnea do olho, enquanto limpava seus óculos pedalando. Uma folha lisa de mato a acertou e ela se assustou, procurou socorro médico e felizmente foi liberada, ao constatarem que não havia sofrido grandes consequências. Sua equipe já liderava a prova.
Final imprevisto
A grande surpresa ficaria no último percurso, o marítimo, navegado em canoas caiçaras à noite, entre os PCs 16 e 18, alcançando chegada no Casarão, aproximadamente oito quilômetros. As rústicas embarcações deveriam esperar as equipes na Praia do Camboré debaixo de um céu nublado e escuro. Quando a líder Coolmax chegou no ponto, as canoas não estavam lá. As condições climáticas, com vento sudoeste, impediu que os barqueiros locais às atravessassem pela Baía. O trecho foi cancelado e as ordens da organização foi clara: seguir até o Casarão de bike. Resolução no mínimo perigosa. Imagine o estado dos atletas após tamanho stress físico e mental. Durante tantas horas no breu do mato, embriagados de cansaço, ainda teriam que encarar 12 quilômetros numa das rodovias mais temidas do país, a BR 101 – neste trecho mão dupla. Para ajudar era noite de sábado, quando o índice de motoristas alcoolizados aumenta significativamente. Porque Deus foi grande não houveram incidentes. Vinte e sete equipes correram o risco... Fica aqui a observação para que as próximas etapas deste excelente circuito de corridas de aventura avalie melhor os imprevistos e preze mais pela vida e por este promissor esporte.

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