Rali humano
Enquanto o grandalhão francês da equipe Globe Runner descansa inerte em sua barraca, após a longa jornada do primeiro dia de prova, o médico da Doc Trotter cuida das doloridas bolhas de seus avantajados pés (tamanho 51) estirados para fora da tenda. As equipes continuam chegando ao acampamento. A diferença que separa a primeira, francesa Er Tips, e as últimas já beira as cinco horas...
Concluía-se deste modo a primeira de cinco etapas da Corrida de Aventura Rio Eco 2000, que realizou-se entre os dias 22 e 26 de novembro, entre os 450 quilômetros que separam as cidades de Teresópolis e Rio de Janeiro. Participaram treze equipes compostas por cinco atletas vindos da França, Argentina e dos estados do Rio, São Paulo e Paraná representado por um único grupo, o da Renault. A prova caracterizou-se como um verdadeiro rali humano, dado pela diversidade de modalidades: montanhismo, orientação, escalada, rapel, ciclismo, canoagem, natação e ride and run (onde um cavalga e os outros dois correm).
As equipes em disputa deveriam estar compostas por três integrantes, sendo obrigatório um do sexo oposto, e podiam contar com mais duas pessoas como apoio: atletas reservas que podiam revezar-se com a equipe principal em vários trechos, artifício explorado por todos os participantes. O apoio ainda era responsável pela comida e preparação dos equipamentos (bikes, caiaques...) nos pontos de transição em que os competidores trocavam de esporte.
Espírito de equipe
Numa corrida de aventura o espírito coletivo é posto à prova até as últimas consequências. Não é uma competição indicada para casais. O amor não resiste. Já presenciei brigas conjugais que terminaram em divórcio..., explica Laurent Maubré, idealizador do evento, aludindo às situações limites em que os atletas são obrigados a enfrentar. A determinação em completar as etapas releva o desconforto e motiva os atletas a puxarem uns aos outros até as metas estabelecidas. A organização reservou uma premiação de R$ 1 mil para o grupo mais solidário. Dividiram a bolada as equipes Allons Enfants e Energia com destaque para esta última, em que o atleta Gustavo Leme, nos últimos 300 metros de um dos dias mais cansativos (o segundo) uma subida descomunal em que os competidores tinham que carregar suas bicicletas nos ombros não se importou em abandonar sua bike e ajudar a atleta argentina Nídia Barrientos até os médicos, já que encontrava-se num estado de esgotamento físico crítico no meio da ladeira quase desmaiando.
Senso de orientação
Um dos fatores cruciais que determinaram as primeiras colocações foi a orientação e navegação durante a prova. As equipes recebiam na noite anterior de cada etapa o Raid Book, um guia com as coordenadas indicando os pontos do trajeto em que deveriam passar. A leitura precisa dos dados, a localização dos pontos nos mapas e uso correto das bússolas foram fundamentais para que os atletas acertassem o rumo e completassem os percursos sem o desgaste de perderem-se a esmo, desperdiçando o precioso tempo acumulado após tanto sacrifício. O desgaste emocional quando uma equipe se perde é muito grande, conta Pietro Soares do grupo Ferrino que, no penúltimo dia durante o trekking em Grumari, liderava sua equipe na terceira posição na seção final da etapa, e numa bifurcação acabou optando pelo caminho errado, o que lhe custou 30 minutos (desceram e voltaram a subir um morro) e por isso acabaram a etapa em quarto lugar. Pietro estava inconsolável...
Outro trecho emocionante ficou por conta do terceiro dia, com a canoagem na represa da Light empresa que fornece energia elétrica no Rio que liberou a área especialmente para o evento. O lugar foi o mais bonito de toda a competição, relata Gilles Zok (46), capitão da equipe vencedora Ertips e nove vezes campeão mundial de canoagem em descida de rio. A paisagem era fantástica! Como o nível da água estava 10 metros abaixo do normal, o horizonte para quem remava ilustrava uma extensa faixa de terra alaranjada que dividia o azul do lago e o verde das palmeiras. As cores ganhavam vida com o forte sol que castigava os competidores.
Aventura para todas as tribos
O grande atrativo das corridas de aventura é a diversidade de esportes abordados em diferentes ambientes e paisagens. As trilhas de mountain bike proporcionaram distintas experiências aos atletas. Se por hora se deliciavam em downhills (descidas) entre vales e rios no meio da majestosa mata atlântica ou na pedalada pela belíssima orla carioca (mesmo debaixo de chuva), não faltaram os momentos de sofrimento: como os famosos seis quilômetros ininterruptos no Vale do Santana guiando as magrelas sobre os dormentes dos trilhos de trem. Tremeram os mais íntimos pensamentos... Tortura!
Por unanimidade a etapa de canoagem oceânica, no penúltimo dia, ganhou o status de ser a mais exaustiva da corrida. Foram 60 quilômetros remando com sol a pino, e, a partir das 13 horas, a odisséia agravou-se com maré e vento contra. Superando as expectativas, sete equipes conseguiram completar a prova. Simone Duarte, integrante da comissão técnica e que por seis vezes foi campeã brasileira de canoagem, torcia: Rezo para que nessa etapa feche o tempo! Com tormenta o vento predominante é o sudoeste, força que empurraria os canoístas ao fim da prova. A grande surpresa foi dada pela equipe paranaense da Renault que conseguiu completar o trajeto com louvor, chegando em quarto lugar, com o tempo de 10h43 (duas horas depois da primeira colocada, Ertips). O curitibano Fábio Vermeulenc conta que o trecho foi muito longo, nunca tiveram a experiência de remar numa distância daquelas. A equipe do Paraná composta Patrice Andrade, Priscila Prestridge, Fábio, Priscila Forone e Renato Kersten levavam no currículo a façanha de percorrer a remo os trechos Paranaguá-Santos e Santos-Rio em duas etapas, totalizando 74 dias.
A modalidade mais engraçada da Rio Eco foi sem dúvida o Ride and Run. A organização disponibilizou um cavalo por equipe, que tinha como missão descer a Serra do Facão no mínimo em quatro horas (foi comum ver os grupos fazendo tempo e os cavalos pastando). Não podiam abusar dos animais garupas foram dispensadas. Um dos integrantes andava a cavalo e os outros caminhavam ao lado muitas vezes puxavam os cavalos que empacavam. Cada pangaré..., reclamava Carmem Lúcia, da Ferrino, empurrando o cavalo do companheiro aos gritos e tapas. Em trilhas mais estreitas e pedregosas, os médicos instruíam aos participantes a descer do cavalo e levá-los na mão.
São Pedro melou o Pão de Açúcar
Com exceção do dia da largada, que caiu um dilúvio repentino atrasando o start em vinte minutos, o tempo bom brindou aos fotógrafos toda a luz e energia que precisavam para registrar cada momento do rali. Para o desânimo geral, no fim de tarde do quarto dia de competição, o forte calor e a formação de nuvens cúmulo anunciavam a virada tempo. Choveu durante a noite. E os organizadores que tinham previsto a largada de bicicleta na Praia de Grumari para as 6 da manhã, prudentemente a atrasaram em duas horas, verificando as condições para a prática das modalidades. Resultado: o trajeto da quinta etapa teve que ser encurtada. O trecho de ciclismo largou da Barra da Tijuca, debaixo de chuva e seguiu pela estrada do Joá e das Canoas, passando pela Vista Chinesa (onde seguiriam a pé para o Cristo Redentor prova cancelada), completando a pedalada na Lagoa Rodrigo de Freitas. Nesta etapa, o atleta local de Petrópolis, Paulo Leite da equipe Capa chegou na frente dos franceses o mesmo aconteceu na pedalada no Vale da Videiras, no segundo dia, que formou junto com Sérgio Cunha, da Alpina, a dobradinha brasileira. Paulo pedala diariamente 60 Km por dia trabalha nas ladeiras de Petrópolis como courier (entrega de documentos).
Na Lagoa as equipes trocaram para os caiaques e seguiram para o mar de Ipanema passando pelo negro canal Jardim de Alá (micoses e afins certamente encontraram hospedeiros). A chuva anunciava trégua, enquanto a Er Tips disparava na frente rumo à Praia Vermelha, aos pés do Pão de Açúcar. Lamentavelmente, o mau tempo inviabilizou a escalada e o rapel do ícone carioca. A organização achou por bem preservar a integridade dos atletas e cancelar a prova. A escalada tornava-se muito escorregadia e perigosa.
Vale ressaltar a heróica perseverança da equipe Ferrino no último trecho da competição. Com a chuva da noite anterior, o caiaque duplo (comporta duas pessoas) acumulou água e rachou. Apesar dos remendos feitos com silver tape, o barco não aguentou a entrada do mar de Ipanema e rachou de novo. Os atletas Pietro Soares e Diogo Teixeira remendaram o barco como puderam, perdendo enorme tempo, e foram a luta: Nunca Ipanema ficou tão longe da Praia Vermelha! Enquanto eu remava, Diogo dava o leme, ele remava, eu tirava água... Um sufoco!, relata Pietro emocionado já na linha de chegada após uma hora e vinte de remada. O esforço rendeu-lhes o terceiro lugar na Rio Eco 2000.
Agradecimento à Renault do Brasil que forneceu o veículo Kangoo usado pela equipe da Folha Aventura
Reportagem: Andrés Baró do Rio de Janeiro
Fotos: Priscila Forone e Andrés Baró veirificar no File Info do Photoshop





