São Paulo - A presidente Dilma Rousseff vai chamar nos próximos dias os governadores dos Estados e os prefeitos de cidades envolvidas com a Copa do Mundo de 2014 para uma ''conversinha''. Vai ouvir de quase todos palavras tranquilizadoras sobre o andamento das obras. Não acreditará, pois terá em mãos relatório encomendado ao ministro do Esporte, Orlando Silva, que traz observações preocupantes. Vai cobrar, ou melhor, exigir, balanços trimestrais sobre o que está sendo feito.
Dilma tem motivos para estar apreensiva. Na prática, pouco foi feito até agora daquilo que é necessário - ou que foi prometido -, seja no quesito estádios ou em infraestrutura. Falar em atrasos, porém, causa reações via de regra irritadas, quando não indignadas. ''Está tudo dentro do cronograma'', é a frase que mais se escuta quando se questiona uma autoridade envolvida na preparação do Brasil para receber a Copa de 2014. Resposta baseada em projetos e processos de licitação em curso. Mas a realidade desmente o discurso.
As arenas são exemplo disso. A maioria das que serão reformadas ainda não superou a etapa da demolição; as que vão ser totalmente erguidas estão em fase de terraplenagem ou de fundações - isso quando nada foi feito até agora, como em São Paulo e em Natal. E há casos de estádios cujos processos de licitação são alvo de órgãos como Ministério Público e Tribunal de Contas.
Apesar disso, até a Fifa já considera que os estádios caminham bem. Pelo menos foi isso que o presidente da entidade, Joseph Blatter, disse na última quarta-feira. Talvez o cartola tenha percebido que as arenas são o menor dos problemas.
Mas, na sua política do morde e assopra (há duas semanas, criticara veementemente os atrasos do País), Blatter saiu da rota. Baseado em relatório que diz ter recebido recentemente, elogiou até as obras nos aeroportos. Ou ele não entendeu o que leu ou os autores do relatório foram, digamos, fantasiosos. Naquele mesmo dia, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) causou turbulência daquelas capazes de derrubar avião: divulgou estudo dando conta que, dos 13 aeroportos que deveriam ser modernizados, nove não ficarão prontos até 2014. O governo reagiu: garantiu que as obras sairão. Para isso, pretende alterar a regra de licitações, a ponto de premiar construtoras que cumpram os prazos.
A Agência Estado fez levantamento de como andam as obras, baseado no que foi prometido e não no que já existe. Estádios e hotéis preocupam menos do que aeroportos e projetos de mobilidade urbana. Mas o sinal para o Brasil está amarelo, quase entrando no vermelho.
SÃO PAULO - São Paulo não consegue resolver seu maior problema para a Copa: o estádio. A Fifa já decidiu fazer a abertura na principal e mais bem estruturada cidade do País e se irrita com a indefinição em relação ao início das obras da Arena do Corinthians, agora prometido para a segunda quinzena de maio. Já se sabe que o local não receberá a Copa das Confederações, em 2013.
Outro problema é a reforma dos aeroportos. Em Cumbica, o maior do Brasil, mas já saturado, a Infraero fala em investir R$ 1,3 bilhão, mas até agora só há intervenções menores. Em Viracopos, tudo está na fase dos projetos. Nada ficará pronto para a Copa.
BRASÍLIA - Brasília decidiu: receba ou não abertura da Copa, o Estádio Nacional Mané Garrincha terá capacidade para 70 mil pessoas. As obras do estádio estão entre as mais adiantadas, mas há complicações. Recentemente, o Tribunal de Contas do Distrito Federal pediu a paralisação dos trabalhos, sob o argumento de que não há garantias orçamentárias para sua conclusão. Enquanto isso, o aeroporto Juscelino Kubitschek espera pelo início das obras de expansão - não há prazo para isso. E o setor hoteleiro precisa de novos empreendimentos - tem 25 mil leitos, quantia insuficiente para uma Copa.
SALVADOR - Salvador começa a se enrolar. O Comitê Organizador sustenta que a reconstrução da Fonte Nova - em fase de instalação das estacas de sustentação e construção de pilares - segue o cronograma. Mas o Crea fez vistoria esta semana e não concorda. O órgão também vê atraso no metrô. As obras, aliás, começaram faz mais de 10 anos e já enfrentaram suspeita de superfaturamento. Trilhos e estações agora estão em fase de acabamento, os trens em teste, mas não há previsão de inauguração. E o aeroporto ainda espera pelo início da reforma, o que só deverá ocorrer em fevereiro de 2012.
RECIFE - Recife acaba de receber o combustível necessário para tocar a Arena Pernambuco - que fica em São Lourenço da Mata, na região metropolitana. O BNDES liberou R$ 280 milhões ao consórcio responsável pela construção, atualmente em fase de terraplenagem e execução das fundações.
PORTO ALEGRE - Porto Alegre tem, no momento, certa tranquilidade em relação ao cronograma estabelecido para a Copa do Mundo. O Estádio Beira-Rio mantém o ritmo das reformas, agora na fase da reconstrução do anel inferior como a face mais visível. Mas o Internacional não tem definida a empresa parceira que ajudará a tocar as obras. Ainda assim, garante que não haverá atrasos.
O problema da capital gaúcha são os projetos de mobilidade urbana: dos dez idealizados, nove estão atrasados e alguns nem projeto definido têm. Apenas a duplicação da avenida que dá acesso ao Beira-Rio está sendo realizada.
NATAL - Natal tem um problema sério: as obras da Arena das Dunas ainda não começaram. O prazo estabelecido é julho, isso se até lá todos os questionamentos ao processo de licitação estiverem resolvidos. O governo potiguar, porém, não admite o atraso, evocando um calendário que teria sido feito entre a Fifa e a governadora Rosalba Ciarlini. O aeroporto também preocupa. O de São Gonçalo do Amarante está sendo construído, mas estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) conclui que não ficará pronto a tempo.
RIO - O Rio vive uma situação ambígua em relação ao Maracanã, estádio da final da Copa de 2014, entre outros jogos. A reforma está caminhando - nesta semana, foi concluída a demolição do anel inferior. A mudança na cobertura (a atual, comprometida, vai ser substituída por uma com lona tensionada) foi aprovada pelo Iphan. Mas o projeto executivo, por meio do qual é feito o detalhamento da reforma, não fica pronto.
O projeto deveria ter ser entregue na última terça-feira ao TCU (Tribunal de Contas da União), mas o prazo foi adiado para 17 de maio. Algo desagradável para uma obra que teve orçamento inicial de R$ 705 milhões, mas os cálculos atualizados já passam de R$ 1 bilhão.
Pelo menos o Rio tem boa situação em relação às obras em aeroportos. A reforma no Galeão está sendo feita e é uma das poucas que deverão ficar prontas para a Copa, segundo o Ipea.
BELO HORIZONTE - Belo Horizonte tem no Mineirão um dos estádios cujas obras para 2014 estão mais adiantadas. O anel inferior está sendo finalizado, assim como a preparação da área para receber o gramado. Mas não há definição sobre a empresa que fiscalizará a obra, pois o processo de licitação foi interrompido por determinação judicial. As obras no aeroporto de Confins enfrentam problemas. O Ministério Público Federal (MPF) foi à Justiça pedir a paralisação do processo de licitação, por falta de estudo de impacto ambiental.
CURITIBA - Curitiba promete entregar a Arena da Baixada em dezembro de 2012. O estádio do Atlético-PR não sofrerá grandes alterações em relação ao que já existe. Será construído um anel superior numa das laterais, estacionamento e área de imprensa vão ser ampliados e dois pilares que atrapalham a visão do torcedor, removidos. O projeto de reforma deve ficar pronto até o fim do mês e as obras têm previsão de início para julho.
As boas notícias param por aí. A ampliação do aeroporto Afonso Pena corre risco de não sair do papel e as obras de mobilidade urbana não começaram. Mas os responsáveis garantem que serão feitas a tempo.
CUIABÁ - Cuiabá fez pouquíssima coisa até agora para o Mundial. A rigor, a terraplenagem para a construção da Arena do Pantanal - ainda não concluída. Já as duas intervenções a serem feitas no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, não começaram.
FORTALEZA - Fortaleza caminha lentamente na preparação para a Copa. O Estádio Castelão teve as obras internas iniciadas há menos de um mês, embora os trabalhos no entorno venham sendo realizados há meses. O governo garante que entregará a arena em dezembro de 2012. As obras de mobilidade urbana seguem ritmo razoável. Mas no aeroporto Pinto Martins, cuja meta ambiciosa é dobrar a capacidade atual de 4 milhões de passageiros/ano, nada saiu do papel até agora.
MANAUS - Manaus tem como única obra para a Copa do Mundo em andamento a Arena Amazônia. A fase é inicial. Está sendo feita a colocação das fundações. Mas a construtora responsável garante que a execução está avançada, com base no cronograma aprovado. O resto aguarda aprovação de projetos e, principalmente, verba.

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