RAFTING RADICAL
Chegou a hora do Ondão, um buraco enorme no meio do rio que forma uma imponente onda e um refluxo fortíssimo, espécie de redemoinho debaixo dágua, que em caso de queda puxa a pessoa para baixo e solta lá na frente... O segredo é manter a calma e esperar a volta à tona. Para vencer o ondão é preciso remar, remar com força, para entrar com velocidade e não ser pego pelo refluxo. Como marinheiros afinados, os seis aventureiros remam ritmicamente com o coração na boca. Perderam! O bote virou e a galera deu com os burros nágua. A visão das seis cabecinhas amarelas (capacetes) arrastadas com o bote rio abaixo é divertida...
Felizmente, parece que Deus desenhou o Itajaí Açu sob encomenda: após o buracão vem um calmo remanso, zona de águas calmas tempo para se refazer do susto, desvirar o bote e seguir caminho.
O Itajaí Açu é explorado pelo rafting em três trechos: o Normal (sete quilômetros), para iniciantes; o Radical (oito quilômetros), adrenalina garantida até aos mais experientes; e o Super Radical (cinco quilômetros), somente para profissionais. Udilon Ewald, 40, guia da Ativa Rafting, operadora de aventura do Vale do Itajaí, explica que o Super Radical é um percurso extremamente difícil, com corredeiras nível 5, e por isso não é oferecido comercialmente. Cada percurso dura em média duas horas.
Aventurando-se
no trecho Radical
Antes de entrar na água o curitibano Cláudio Graminho, 30 anos, três de rafting, confessa: Nunca sabemos o que vai acontecer! Mesmo tendo a experiência de várias descidas, o trecho radical é sempre uma estória diferente. O rio é dinâmico e seu nível varia de acordo com o humor de São Pedro: com chuva na cabeceira, o rio fica alto e inviabiliza a prática em alguns pontos, mas em outros o rafting vira adrenalina pura! Quando a torneira mestra fecha, os vãos livres nas quedas dágua crescem radicalmente... Desta vez, o rio estava com 1,70 m acima do seu nível considerado normal entre os rafteiros.
Já no primeiro trecho, remando num longo remanso, o ruído de água caindo revela: a Montanha Russa nos espera. Considerada por muitos como o ponto mais intenso, a corredeira apresenta queda-livre em dois lances. Um forte arrepio corre como um choque entre os tripulantes, afinal é o primeiro e maior obstáculo do dia! A medida em que o bote se aproxima, o degrau de um metro e meio se acentua... Instintivamente, os pés se firmam nas bordas do inflável e a alma aguarda o tranco... Lembra mesmo o enorme brinquedo no parque de diversões, intensificado, ainda, pelo barulho e movimento da corredeira. Apesar do último remador parar no meio da embarcação, felizmente, fofa, cheia de ar, ninguém caiu na água e virou vítima do voraz refluxo. Num contagioso grito de alívio a turma se livra do stress acumulado... O espírito de equipe no rafting está sempre presente. O guia, sempre na parte traseira do bote, comanda: Esquerda ré! Esquerda ré! Tudo Frente!!, e o bote vai sambando rio abaixo esquivando-se de pedras e armadilhas do percurso... A remada deve ser rítmica e constante. São seis ou oito pessoas distribuídas aos pares, enfiando os remos na água numa coreografia jamais ensaiada... Brincadeiras e reclamações empurram os colegas para frente. Em pontos de corredeiras é necessário acelerar! O bote deve ir mais rápido que o fluxo de água e passar da chupadeira ileso. Se um descansar já era... Foi o que aconteceu nos trechos do Ondão e Caldeirão em que o bote, com pouca velocidade, foi puxado e virado pelo refluxo todos para a água.
Uma vez na água, deve-se manter o corpo inteiro na superfície: barriga para cima e pés para frente, fique atento ao bote e nade ao seu encontro. O guia vai desvirá-lo e resgatar cada um dos perdidos. A virada é um procedimento normal, muitas vezes procurada pelos aventureiros. Não tem graça descer o radical sem vivenciar ao menos uma virada, relata Rita Siquela, administradora da Ativa. No Caldeirão o refluxo é assustador! Ele puxa fundo e solta vários metros à frente... O segredo é manter as pernas para cima e ter calma, não esqueça de encher bem os pulmões de ar. O carioca Cristiano Alkaim, um dos que puxava o ritmo na popa, experimentou o banho por duas vezes seguidas: Se você não nadar para fora da área o refluxo te chupa outra vez!, contava com os olhos arregalados na hora em que foi resgatado com um remo por outro companheiro...





