Radicado no Brasil, Nicolas Albo não esquece o Santander
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sábado, 03 de outubro de 1998
Claudemir Scalone 
O espanhol Nicolas Fernandez Albo, de 57 anos, dos quais 29 vividos no Brasil, é fã do Real Racing Club Santander. Ele exibe com orgulho a flâmula do clube no Empório Salamanca, uma loja de embutidos e bebidas no centro de Londrina. Nicolas nasceu em Limpias, uma cidadezinha de cerca de mil habitantes no norte da Espanha e a 30 km de Santander.
A paixão pelo futebol, segundo ele, vem da infância. Desde criancinha gostava de jogar futebol, e jogava muito bem, faz questão de frisar. Atuava como ponta-de-lança e tinha muita habilidade. Jogava nos times colegiais de Santander e poderia ter sido profissional. Só não fui porque meu pai preferia que eu estudasse. Não fosse isso, poderia ter uma carreira no futebol, com certeza, diz ele, sem modéstia.
Nicolas começou a torcer pelo Racing aos 14 anos, quando foi prosseguir os estudos em Santander. Não perdia um jogo sequer. Quando vi aquela camisa branca e o calção preto, me identifiquei. O time nunca ganhou nada, mas é a minha região e, de lá, saíam muitos jogadores bons, explica, sobre a empatia com o time de Santander. Além disso, todo jogador bom do Racing jogava mais tarde no Real Madrid, e isso é um orgulho para a torcida de Santander, completa. Daí, nada mais natural escolher o Real Madrid com segundo time. Pro Barcelona nunca torceria. Os torcedores da Catalunha pensam que são superiores, fazem questão de falar a língua deles. Eu não, sou espanhol, critica.
Um dos ídolos de Nicolas, na época, era o ponta-esquerda Gento, revelado pelo Racing e levado pelo Real Madrid. Este homem dava espetáculo. Ele levava três beques atrás dele e só dava pra trás para o Puskas e o Di Stefano marcarem. Gento era um artista. Era tipo o Garrincha, só que pela esquerda, descreve com fascinação. A imprensa só falava de Puskas e Di Stefano, mas quem fazia quase tudo era o Gento.
Nicolas veio ao Brasil em 1969 como turista e acabou ficando. Ficou curioso em conhecer o País depois que um primo, que veio morar em São Paulo, disse maravilhas do Brasil. Dois meses depois da chegada à capital paulista, pela qual se apaixonou à primeira vista, regularizou sua situação no País e arrumou emprego em uma gráfica, ramo no qual já trabalhava em Santander.
Quatro anos mais tarde, conheceu a mulher Maria Aparecida Gonsales, com quem teve o filho único Nicolas Fernandez Albo Junior. Trabalhou na gráfica por 16 anos e, depois, abriu uma loja de importados próxima à praça Osvaldo Cruz, início da Avenida Paulista. Só trocou a capital paulista por Londrina há seis anos porque a mulher queria criar o filho, Nicolas Jr., hoje com 17 anos, numa cidade menor e mais tranquila.
Logo que chegou a São Paulo, Nicolas foi conferir de perto o Santos de Pelé & cia. num jogo contra o São Paulo, no Morumbi. Nenhum dos times lhe chamou a atenção. Pouco tempo depois foi assistir ao pega entre Corinthians e Palmeiras e, então, descobriu uma nova paixão no futebol. Não sei se pelas cores do uniforme, que me lembrava o Racing, ou pela vibração da torcida, virei corintiano naquele dia, relembra Nicolas.
Outro fator que pode ter contribuído para afeição ao time de Parque São Jorge, naquele ano de 1969, era o longo jejum de títulos por que passava o Timão. Residia aí, talvez, o elo-comum com o Racing Santander: times alvinegros que não eram campeões. Quanto mais o time perdia, mais corintiano eu virava. Perdíamos, mas éramos os que mais iam aos estádios. Sou corintiano roxo, diz, com orgulho.
A mulher Maria Aparecida, que diz ter virado corintiana por causa do marido e do filho, conta que o comportamento de Nicolas muda em frente à TV. Ele é um corintiano fanático. Grita, fica rouco e fala palavrão como se estivesse no estádio. Às vezes, chamo a atenção dele, conta. Nicolas não dispensa apostas contra os rivais palmeirenses. No antigo endereço, num prédio da rua Borba Gato, costumava apostar caixas de cervejas com um vizinho palmeirense. Quem ganhou mais? Ninguém levou vantagem, empatamos nas apostas, ele garante.
Mas não são só o Racing e o Corinthians que ganham a atenção de Nicolas. Ele gosta de ver os jogos das seleções espanhola e brasileira. Quando os dois países se enfrentam, fica dividido. Mas não tem dúvida: O Brasil tem a melhor seleção do mundo.
Nicolas sempre mantém contatos com os familiares na Espanha. Já os visitou por quatro vezes. Na última, no ano passado, pôde assistir ao clássico regional entre Racing e o rival Atletico Bilbao e, para sua felicidade, seu time venceu por 1 a 0. Ele não alimenta sonhos de grandes conquistas pelo Santander. Eu torço para que o Racing sempre fique na primeira divisão para jogar contra o Real Madrid e o Barcelona. Isso já é um orgulho para mim.


