Augusto Cézar Carvalho, 27 anos, desistiu do futebol bem jovem, ainda aos 14. Foi estudar e trabalhar para ajudar no sustento da casa. O que ele nunca imaginava é que 13 anos depois, o sonho do garoto, abortado na adolescência, se materializaria e viraria realidade.
Ele participou de uma pelada que mudou sua vida. Jogando com amigos, sem querer impressionou o zagueiro da Lazio, Emilson Cribari, que prometeu arrumar um clube para o amigo de infância. Meses depois, um telefonema e a intimação: ''Amanhã você pega o vôo para a Itália. Arrumei um time para você jogar'', disse Cribari em fevereiro deste ano. ''Eu não pensei duas vezes. Ele me ligou num domingo e na segunda-feira embarquei. Larguei tudo, expliquei para a namorada e fui'', contou Augusto.
No convite feito pelo amigo famoso, ele viu a oportunidade de realizar dois sonhos de uma vez: ser jogador profissional e dar uma vida melhor para a família. ''Deu um frio na barriga, medo, ansiedade. Mas senti que poderia realizar o sonho da minha vida, ainda que pudesse ser por um período curto, mas já estava valendo'', afirmou.
Augusto trabalhava como auxiliar administrativo em uma operadora de telefonia fixa da cidade. O salário de R$ 1 mil mensais - R$ 546 registrados na carteira de trabalho e R$ 454 por fora - não foi suficiente para que ele levasse até o final o curso de Administração de Empresas em uma universidade particular. Porém, os três mil euros - cerca de R$ 8 mil - que vai ganhar defendendo o Diana Nemi, da Quinta Divisão italiana, já mudarão e muito a situação na casa dele.
Augusto passou por um período de avaliação no Diana Nemi. Nestes três meses, mesmo sem contrato, recebia um salário mensal de 1,5 mil euros - cerca de R$ 4 mil. Ele assinou contrato de um ano com o clube, virou meia-esquerda e vai disputar sua primeira temporada a partir do segundo semestre.
O agora jogador mora com Cribari em Roma, a 60 quilômetros de Nemi. Os treinos acontecem apenas em um período e os jogadores são liberados para arrumarem outro emprego. Augusto, porém, se dedica a outra atividade. ''A culinária italiana é muito boa, mas a língua é o que está me dando trabalho. Uma das exigências para minha permanência é falar italiano. Por isso, estou estudando muito para falar e entender rapidamente'', contou.
Se Augusto já vive um sonho, Geraldo Girão Colofetti, ou Kekeu, 20, se prepara para entrar em um mundo novo. O meia-atacante nascido em Fortaleza embarca no dia 10 de agosto para Itália e será um dos adversários de Augusto na Quinta Divisão do Campeonato Italiano. Ele vai defender o Hellas Verbania.
Acostumado a jogar futsal, Kekeu tentará a sorte pela primeira vez no futebol de campo. O salário, o tio que mora na Velha Bota, já acertou: 800 euros por mês. Mas Kekeu já pensa em outras alternativas para aumentar a renda. ''Como os treinos são à noite, dá para trabalhar de dia e tirar ao todo uns 1,5 mil euros'', diz com empolgação. ''Aqui no Brasil não conseguiria, a máfia é grande'', completou, contando que vai morar com os tios para economizar e juntar dinheiro.
Kekeu já faz planos para quando chegar na itália. Quer jogar bem e subir alguns degraus na carreira. ''Meu tio tem contatos no Atalanta. Quem sabe não consigo ir para lá logo'', projetou. Porém, antes de pensar nisso, terá que brigar com outro adversário. ''O frio será meu inimigo. Sair do calor do Ceará para o frio italiano vai ser páreo duro'', previu.
A Série D, Quinta Divisão, é o nível mais alto das equipes amadoras da Itália. É o único campeonato que abrange todas as regiões do país. A Série D é divida em nove grupos, geralmente formados por 18 equipes cada. Sobem para a C2, a Quarta Divisão, a primeira equipe de cada grupo. As últimas duas equipes de cada grupo caem diretamente para a Eccellenza, a Sexta Divisão italiana. Outras disputam um torneio-extra. Ao todo, são dez divisões no futebol italiano. (T.M.)

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