Bergish Gladbach - A sensação de pisar as arquibancadas vazias, à espera do duelo, é a de quem entra num coliseu moderno. Com estátuas vivas e vozes do passado em campo, Brasil e França repetem a final de 98 para decidir vaga nas semifinais do Mundial de Alemanha, hoje, às 16 horas (de Brasília), em Frankfurt. Naquela ocasião, o triunfo de Zidane acabou em tragédia para Ronaldo. Agora, os dois protagonizam novo drama esportivo. Diante dos monstros sagrados, até o novo herói ficou escondido. Como acontecera há oito anos, Ronaldinho Gaúcho voltou a ser aquele jovem que gostaria de ser Ronaldo e Zidane quando crescesse. Enquanto os dois já tem lugar de destaque na história, chegou a vez de Ronaldinho escrever a sua: ''Espero que sim. Meu objetivo é seguir os passos dos grandes jogadores e sair vitorioso'', disse.
A expectativa sobre Ronaldinho é parecida com que a Ronaldo carregava em 98. Os dois chegaram à Copa como melhor jogador do mundo e também com rosto mais exposto pelo planeta em campanhas publicitárias. De bom futebol a rentabilidades, os Ronaldos ofereceram de tudo. O mais velho sucumbiu ao esforço de entregar ao público tudo o que prometera. Depois de fazer quatro gols e grandes partidas, teve uma convulsão horas antes da final em que a França venceu por 3 a 0. Durante toda campanha, Ronaldo repetia sua meta de bater o recorde do francês Fontaine, que fez 13 gols em 58, por mais que o recorde ficasse mais longe a cada jogo.
Ronaldinho procura assumir menos responsabilidades. Em todas as entrevistas, o camisa 10 diz que sua função primordial é a de ajudar o Brasil a vencer. Para isso, tenta se adaptar a uma função diferente da que exerce no seu clube e também a um discurso que não soa bem para a torcida brasileira.
A maior contribuição que Ronaldinho pode dar ao time são seus dribles, passes e lances decisivos. Há um ano que o jogador não faz um gol pela seleção. Na Copa, brilhou apenas no terceiro jogo contra o Japão, quando participou da jogada de três dos quatro gols. Hoje, vai reencontrar o palco em que desfilou seu melhor futebol, ao conquistar a Copa das Confederações, com goleada sobre a Argentina por 4 a 1: ''Tenho consciência de que posso render mais'', disse o craque.
Com seu teto retrátil e visual futurista, o estádio de Frankfurt vai entrar para a mitologia das Copas. Ronaldinho sorri diante da chance de redenção que o jogo oferece: ''Meu objetivo maior é dar passes para gol, mas marcar num momento importante como esse é sempre bem vindo.''
Zidane também sempre deu prioridade à armação, mas se consagrou pela força com que irrompeu na área brasileira para fazer dois gols de cabeça na final. Filho de argelinos, o triunfo do craque fez a França se unir por instantes, livre das fronteiras étnicas que ainda cortam o país. A força de Ronaldo também serviu para integrar uma nação fragmentada pela desconfiança. Depois de passar quase dois anos sem jogar, poucos acreditavam na ressurreição do craque, ocorrida em 2002.
''São dois monstros do futebol que marcaram essa última década'', disse o técnico Carlos Alberto Parreira, que naturalmente quer ver Ronaldo em vantagem. ''Zidane está em sua última Copa. Se estiver motivado, Ronaldo pode ir além.''
Zidane costuma estar por perto nos momentos de dor de Ronaldo. Além do papel de algoz na final de 98, o francês foi um dos amigos de primeira hora após a séria lesão sofrida pelo brasileiro. Apesar de jamais ter morado ou triunfado ali, Paris é acolhedora para Ronaldo. A cidade onde foi operado é também aquela em que o craque aproveita seus dias de folga. Assim como Zidane, pode ser visto em restaurantes e boates do Champs Elissés. Diante da majestosa avenida que dá no Arco do Triunfo, nenhuma celebridade é capaz de chamar tanta atenção.
Ronaldinho Gaúcho sofreu com a indiferença parisiense nos dois jogos que jogou ali sob o comando de Luis Fernandez. Assim como Ronaldo, seu futebol chegou ao auge longe da França. Ronaldinho já é um campeão do mundo, fez dois gols e boas partidas em 2002, mas falta-lhe ser coroado como destaque de uma Copa. O francês Henry também tem história semelhante. Sob as bandeiras de quem pôs fim aos direitos vitalícios na política e no futebol, franceses e brasileiros preparam-se para conhecer o novo rei.

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