Quem apoiou Caldarelli é responsável
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quarta-feira, 22 de outubro de 1997
Flávio Campos Londrina 
J. PedroSem pistaGarcia: Uma auditoria no Londrina não vai ajudar muito. Malandro não deixa documento para trás Na busca dos motivos que levaram o Londrina à terrível crise financeira que o clube atravessa, a Folha continua ouvindo algumas pessoas que fizeram a história do clube. O entrevistado de hoje é Carlos Alberto Garcia, 43 anos, que jogou no Tubarão durante o período compreendido entre 1975 e 1986, e que foi o maior ídolo da torcida alviceleste em todos os tempos. Quando encerrou carreira, Garcia foi eleito vereador, chegando à presidência da Câmara. Foi candidato a vice-prefeito e hoje ocupa o cargo de gerente de vendas do Consórcio União de Imóveis. Mesmo derrotado por Marcelo Caldarelli nas últimas eleições do Londrina, ele continua preocupado com o futuro do clube.
FOLHA - O Londrina está morrendo?
GARCIA - A Justiça tem que cumprir a sua parte, e vai cumprir. Mas tudo é negociável. A procura de acordo com os credores é o melhor caminho para o Londrina. Acho que a sua sobrevivência está nas mãos das pessoas que o estão dirigindo no momento, dos ex-presidentes, do prefeito e de pessoas que têm poder de influência.
FOLHA - Por que está acontecendo tudo isto com o Londrina?
GARCIA - Na verdade, pelo menos desde que cheguei aqui, há 22 anos, o Londrina nunca foi auto-sustentável, nunca teve caixa, sustentação financeira. Naquele tempo, o Jaci Scaff pagava tudo e depois tinha que ficar esperando muito tempo até que surgisse uma transação de jogador, para se ressarcir de uma parte do dinheiro gasto. A maior parcela nunca retornava. O Londrina sempre gastou mais do que arrecadou. E só demorou quase 50 anos para quebrar porque seu nome é muito forte. Alguns presidentes souberam administrar esta situação, como o Iran, o Pagani, o Jaci, o Ézio Secco e outros. Até que veio o Caldarelli e não soube levar. Ele se perdeu. Foi inconsequente em algumas situações, como ao colocar um irmão para trabalhar a seu lado e depois permitir que esse irmão entrasse na Justiça contra o clube.
FOLHA - Algum dirigente roubou o clube?
GARCIA - Nunca houve dinheiro no caixa para ser roubado. O que houve foi muito descontrole, más administrações, gastos exagerados com contratações etc. O Franchello errou ao chamar ex-dirigentes de ladrões. Especialmente ele, que recentemente enfrentou tantos problemas judiciais como diretor da Codel, não poderia fazer acusações deste tipo.
FOLHA - O que é que mudou daquele tempo em que você jogava no Londrina?
GARCIA - Os problemas são os mesmos. O clube sempre viveu pedindo ajuda. O pagamento dos jogadores já era feito com constante atraso. Vendi muito ingresso para jogos, nas ruas, para ajudar na arrecadação. O que mudou foi a época. Acho até que os jogadores de hoje são mais pacientes. Naquele tempo, tinha gente que não suportaria o que hoje ocorre.
FOLHA - Se você tivesse sido eleito presidente a situação seria diferente?
GARCIA - Se eu tivesse ganho a eleição, teríamos um Londrina com os pés no chão, sem loucuras. Nosso plano era montar um time modesto e investir na revelação de jogadores. Seria um trabalho a médio e longo prazo. Mas não me deram esta oportunidade. Fui candidato, botei a cara para apanhar, porque vi que o outro candidato não tinha condições. Era um demolidor. Muita gente que apoiou o Caldarelli está agora falando em auditoria. Como o Franchello (ex-presidente), o Zamboni (ex-presidente), os advogados Vianna e Amaral e o delegado da época, Clóvis Galvão. O Pinheiro (comentarista esportivo e ex-treinador João Paulo Reeberg) chegou a dizer que estava surgindo um novo Franchello. Estas pessoas votaram e trabalharam para eleger o Caldarelli. São portanto co-responsáveis por tudo o que aconteceu.
FOLHA - O surgimento da SAL foi bom ou ruim para o Londrina?
GARCIA - Foi importante, porque se não fosse a SAL o Londrina já teria morrido. Mas eles erraram em gastar três vezes mais do que arrecadaram e ainda adiantadamente. Erraram também em fazer parceria com gente ruim, como Onaireves Rolim de Moura (presidente da Federação Paranaense) e Juan Figger (empresário de jogadores). Mas fizeram muita coisa boa. Os kits, por exemplo, foram um grande sucesso.
FOLHA - Você chegou a integrar a SAL, mas logo se afastou. Por quê?
GARCIA - Senti que eles queriam resultados imediatos e eu, que joguei futebol, sei que isto é impossível. Ninguém faz um campeão da noite para o dia.
FOLHA - É justo que a SAL pague as dívidas trabalhistas do Londrina?
GARCIA - O nome do Londrina é mais importante do que a SAL e todos nós. Sem ele, a SAL não existiria. Se a Justiça entender que a SAL deve pagar, não vejo outra saída. Se as dívidas não forem pagas, morre o Londrina e morre a SAL.
FOLHA - Você se candidataria outra vez à presidência do Londrina?
GARCIA - Não posso e não quero. Acho que já fiz o meu papel. Continuo sendo sócio contribuinte do Londrina e pagando religiosamente a minha mensalidade.
FOLHA - O que pode ser feito de imediato para salvar o Londrina?
GARCIA - Só com o envolvimento geral da cidade. Será preciso esquecer as vaidades pessoais. Até quem está acionando judicialmente o Londrina deve procurar uma solução, porque se o clube morrer ninguém vai receber nada. Auditoria não vai ajudar muito. Malandro não deixa documento para trás. E sem documento não há auditoria. Como a sede campestre já está conseguindo sobreviver sozinha, acho que a Justiça deveria dar um prazo e firmar um acordo para pagamento posterior destas dívidas.


