Quando éramos reis
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sexta-feira, 27 de julho de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

Imagine se o Japão fosse campeão da Copa do Mundo de futebol. Mal comparando, o Brasil comemora no próximo mês 25 anos de uma conquista tão improvável quanto esta seria, e com Londrina como cenário.
Em agosto de 1993, a seleção brasileira de beisebol conquistou o Campeonato Mundial de Beisebol categoria Júnior AA (15 anos), disputado na cidade. Considerado azarão, o Brasil foi derrotando aos poucos equipes que eram favoritas e que tinham muito mais tradição no esporte.
Antes dessa conquista, o Brasil já vinha obtendo resultados expressivos nas categorias de base: havia sido vice-campeão em 1990 e terceiro colocado em 1991. Mas ainda faltava o título mundial.
O fato do Brasil ter conseguido essa façanha em Londrina tem um valor especial para quem é pé-vermelho, porque a equipe contou com cinco londrinenses em seu elenco: Ederson Silva, Fábio Hiroki Miyagussuku, Fernando Ishikawa, Márcio Suzuki e Reinaldo Kuriki. O time brasileiro era comandado por três treinadores: Nelson Okada, Jorge Ogassawara e o cubano Orlando Santana, supervisor do selecionado.
"O nosso coração fica cheio de saudades por ter conquistado aquele título. Até hoje, o beisebol ainda é um esporte amador no Brasil e por isso o feito é inacreditável. A gente tinha expectativa de fazer um bom campeonato e de jogar com grandes seleções e conseguimos esse título", descreve Fernando Ishikawa.

Ele ressalta que foi naquela época que os técnicos cubanos começaram a trabalhar no País. "Eles trouxeram novas técnicas, que eram mais agressivas, mas não no mau sentido, e sim no de trazer a garra do esporte cubano. Tudo isso foi misturado com a disciplina do beisebol japonês, que era a escola que o beisebol brasileiro seguia. Algumas pessoas avaliaram que nosso time era tecnicamente inferior a outros que estavam naquele campeonato, mas a nossa garra era muito grande. Eu acho que foi isso que nos fez superar tudo", aponta Ishikawa.
O torneio foi disputado pelas seleções da Argentina, Austrália, Brasil, China Taipei (Taiwan), Coreia do Sul, Cuba, Guatemala, Japão, México, Nova Zelândia, Peru e Venezuela.
Outro ex-integrante daquela equipe, Fábio Miyagussuku, relembra que a meta do time inicialmente era ficar entre os quatro primeiros. "No decorrer do campeonato, fomos ganhando confiança e o time viu que dava para disputar o título", revela. Questionado sobre qual foi o fator fundamental para vencer adversários de países tradicionais no esporte, ele conta que nos treinamentos a seleção jogava contra equipes de categorias mais velhas para ganhar experiência. "O Orlando Santana tinha frases motivacionais, que ele pedia para a gente repetir ao final do treino. Ele trabalhava a parte psicológica do time também", relata.
Segundo Ederson Silva, outro campeão de 1993, Santana começou com um treinamento diferenciado, em que pedia muita agressividade quando o time estava no ataque, para compensar a diferença física. "Ele falava para o time não ficar esperando e ir para cima sempre, independente do tamanho dos adversários. O Brasil sempre foi um dos times de menor estatura do campeonato", afirma.
A primeira partida foi diante da Argentina. Mesmo com o nervosismo da estreia, o time brasileiro foi muito superior e venceu por 17 a 1. Na época, Orlando Santana avisou que a equipe ainda não tinha demonstrado todo o seu potencial, mesmo com o placar elástico.
De fato, a equipe brasileira foi evoluindo ao longo da competição. As seleções foram ficando pelo caminho. O Brasil passou também por Venezuela, Austrália, Coreia do Sul, México e Peru. Um dos jogos mais difíceis da primeira fase foi quando o Brasil perdeu para Cuba por 4 a 3 na prorrogação, depois de três horas de jogo. Nas quartas de final, o time brasileiro venceu o Japão por apenas um ponto de diferença. Na semifinal, voltou a pegar Cuba, mas desta vez o placar foi favorável aos brasileiros: 2 a 1.
Na final, outro jogo difícil. Os torcedores taiwaneses vieram em grande quantidade e contrataram até um helicóptero, que quase pousou no campo antes da final, como uma forma de incentivar sua seleção e também uma tentativa de intimidar o time brasileiro. O público para esta partida no estádio Takeshi Sugeta, na Acel (Associação Cultural e Esportiva de Londrina), foi de 10 mil pessoas. O Brasil começou a partida perdendo por 1 a 0, logo na primeira entrada. Mas conseguiu terminar com 3 a 2 a seu favor.
Para Alexandre Nakata, que integrou a seleção brasileira que foi vice-campeã no Mundial de 1995 ao perder para Cuba na final, o título de 1993 foi fundamental para as próximas gerações. "Hoje, a gente continua com esse beisebol para outras pessoas se espelharem e poderem jogar", destaca.
Vice em 1995 e em 2007 e terceiro colocado em 1994, o Brasil nunca mais repetiu a conquista de Londrina.


