A cena é mais que interessante: a instrutora soltando as bolinhas para o treino de rebatida e a molecada, em fila, toda agitada tentando mandar a bola para o outro lado da quadra. A disciplina e a empunhadura da raquete não são das melhores, porém, a alegria e a satisfação que demonstram por estarem tendo a oportunidade de aprender no seu bairro um esporte elitizado, como o tênis, compensa toda a falta de técnica.
  A motivação da garotada é tamanha que também compensa a total falta de infra-estrutura do local, que está mal cuidado pelo poder público e com evidentes sinais de vandalismo. A quadra de cimento está com buracos, os alambrados depredados e na parte de trás há um antigo banheiro que hoje talvez só sirva para abrigar desocupados e usuários de drogas. Apesar de todos esses aspectos contrários, a criançada não desanima e muito menos o coordenador do projeto, Valdenir de Almeida Silva, o Valdena.
  Proprietário da Academia Point Tenis (APT), situada na Zona Sul de Londrina, e diretor-técnico das seleções masculina e feminina de Londrina nos Jogos da Juventude do Paraná (Jojups), Valdena idealizou e iniciou no ano passado o projeto ‘‘Jogue Tênis’’, com o objetivo de buscar talentos na periferia e entre alunos de escolas públicas do município.
  O primeiro pólo é o do Jardim Hedy (Zona Oeste) e envolve 30 crianças de duas escolas municipais e de uma estadual da região. As aulas acontecem às segundas e quartas-feiras, das 9 às 11 horas, e às terças e quintas, das 14 às 16 horas, na quadra comunitária situada ao lado da Escola Municipal Melvin Jones. E, uma vez por mês, o treinador também as leva para a sua academia para terem contato direto com outros jogadores, assistirem a jogos e irem se familiarizando com uma quadra de saibro.
  Valdena, que é oriundo de família humilde, conta que sempre teve o desejo de tornar o tênis mais acessível às camadas mais populares. ‘‘Sempre sonhei em realizar um projeto assim e agora, com o apoio de tenistas e empresas que me doam bolas e raquetes (ele tem 30 só para as crianças do projeto), está sendo possível’’, comemora o treinador. Em sua opinião, ‘‘há talentos escondidos por aí, mas que nunca serão descobertos se o tênis continuar restrito apenas às academias particulares’’.
  E o esforço vale a pena, garante Valdena. ‘‘Por ser um esporte diferente dos outros que estão acostumados, o interesse deles (pelo tênis) é incrível. Tanto que quando chove ficam doidos, porque sabem que não vai haver aula’’, conta ele. O Jardim Hedy foi o local escolhido porque foi lá que Valdena se criou e onde ainda possui muitos amigos. Ele coordena um grupo de quatro instrutores, que são alunos de Educação Física, e deixa a sua academia quatro dias por semana para acompanhar de perto o aprendizado das crianças.

mockup