Que a grande maioria dos astros e milionários do futebol saíram da pobreza não é novidade para ninguém, é quase um clichê. Em outras modalidades, o esporte difundido na base em bairros carentes, também revelou campeões no vôlei, judô, basquete e vários outros esportes. Porém, mais do que revelar campeões, a prática esportiva pode mudar a vida de crianças e adolescentes carentes, criados em ambientes propícios para terem um futuro nebuloso.
Sendo assim, um dos principais projetos sociais de Londrina não poderia deixar de fora o trabalho esportivo com as cerca de 120 crianças de 8 a 14 anos que atende no Conjunto Novo Amparo, na Zona Leste. Entre uma aula de música e outra, entre um aprendizado de culinária e outro, os meninos e meninas assistidos pela Associação Mãos Estendidas (AME), praticam aikidô, judô e ginástica rítmica, além do ballet.
Disciplina, educação, respeito, competitividade sadia. Tudo isso faz parte das aulas, seja qual for a modalidade. Aspectos que as crianças levam para a vida. ''A professora ensina que não é para agredir o colega e que o judô é um esporte de defesa. É para se defender e não ficar se exibindo na rua'', afirmou o aluno Santiago Miguel Vitalino, de 14 anos, sobre as aulas de judô.
Assim como boa parte dos meninos e meninas do projeto, Santiago não pensa em ser atleta, mas não abre mão das aulas. O aprendizado podem ajudá-lo na arquitetura, carreira que quer seguir no futuro. ''Se não tivesse o projeto, eu estaria na rua aprendendo o que não presta. O esporte é muito importante, pois ajuda no desempenho na escola e na disciplina'', apontou o desenvolto e articulado Santiago, que está há três anos no Mãos Estendidas. Ele mora com a mãe, que está desempregada, com o padastro, que é ensacador, e com as duas irmãs.
A tímida Flávia Juliana de Sá Moraes passou metade dos seus dez anos de idade no convívio com os colegas do projeto. Ela também foi fisgada pelo judô e não pretende parar. ''Quero continuar fazendo judô quando crescer e ser uma atleta'', disse a garotinha.
Também filho de família carente, Wesley da Silva, de 14 anos, sabe que não teria condições de aprender algumas modalidades esportivas não fossem o projeto social, por conta do custo. Por isso, valoriza muito o que aprende nas aulas. ''Aprendi sobre a história e a cultura do judô, a mostrar educação e disciplina, não brigar, não machucar o amigo e usar somente como esporte'', afirmou o novo judoca, que já é um 'veterano' do esporte. ''Tenho umas dez medalhas de atletismo que eu ganhei pela escola'', disse, empolgado.
No mês passado, as crianças da AME participaram de atividades no 13º Arthrom Tennis Cup, torneio de tênis infanto-juvenil londrinense que vale pontos para o ranking mundial da categoria. O torneio juvenil internacional dividiu as quadras entre os jogos das categorias 14, 16 e 18 anos masculino e clínica para os pequenos do projeto. A maioria teve contato pela primeira vez com raquete e bolinha de tênis, um esporte mais elitizado.
Superação
A própria professora de judô dos garotos é um exemplo de superação e de que o esporte pode mudar a vida deles. Glaucieri Aparecida Fonseca, de 24 anos, saiu de um projeto social em Jaguapitã, para se tornar uma judoca três vezes campeã paranaense e vice-campeã no torneio Sul-Brasileiro. ''Também saí de um projeto assim e agora estou tendo a oportunidade de retribuir'', afirmou a judoca e estudante de educação física, que ainda dá aulas de ginástica rítmica.
A mudança no comportamento das crianças chama atenção, segundo a própria professora. ''Mudou a disciplina, o respeito com as mães, com os amigos, o hábito em casa, já que eles estão ajudando mais'', ressaltou a brava Glaucieri, que não pensa duas vezes em ''dar uma dura'' em quem resolve terminar uma luta com briga. ''Eu ensino vocês a brigarem?'', pergunta, em tom de repreensão, antes de ouvir um não em coro.
''As crianças mudaram o comportamento. Elas evoluem diariamente no palavriado, na educação. As crianças daqui do Novo Amparo têm uma influência muito negativa. Nem todas as crianças do bairro estão aqui no projeto e dá para ver a diferença'', apontou a coordenadora da AME, Viviane Kawasaki.
O projeto foi criado em 2003 por iniciativa do dentista Aldo Pedalino e de sua esposa, a advogada e atual presidente, Patrícia Grassano, através da Pastoral da Criança. A entidade é mantida através de doações de empresários locais e também recebe uma verba pequena da administração municipal por meio de um convênio com a Secretaria de Assistência Social. A AME fica na Rua Maria Garcia Lopes, 220, no Conjunto Novo Amparo. Quem quiser ajudar a entidade pode ligar no (43) 3337-3790 ou (43) 3025-3777.

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