São Paulo - A noite de 4 de agosto foi animada na casa de Sebastião Nunes, antiga e espaçosa construção no bairro Floramar, em Belo Horizonte. Na mesa da sala, pizzas e refrigerantes, pagos pelo aposentado de 85 anos. No rosto das pessoas, largos sorrisos. Ninguém fazia aniversário. A comemoração, porém, se justificava. O filho de Sebastião chegara em casa um pouco antes, exibindo a carteira profissional preenchida. Estava empregado.
Aguinaldo Soares Nunes, de 43 anos, separado, duas filhas adolescentes, acabara de ser contratado pelo Consórcio Minas Arena. Por um salário mínimo por mês (R$ 545,00), tornou-se encarregado de cuidar dos armários, e de zelar pelos pertences, dos operários que trabalham na reforma do Mineirão. ''É uma oportunidade de ouro'', definiu.
Aguinaldo é um dos beneficiados do convênio estabelecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com Comitê Organizador da Copa de 2014 (COL), Ministério do Esporte e estádios e municípios que receberão jogos do Mundial. O acordo prevê a contratação de ex-presidiários e detentos do regime semiaberto, em uma parceria com o Programa Começar de Novo, para as obras da Copa, notadamente de construção e reforma de estádios.
Além de Belo Horizonte, outras cidades já implantaram o programa. Cuiabá, a pioneira em agosto de 2010, Brasília, Salvador e Fortaleza, a mais recente. Até o momento, foram cerca de 90 contratações.
Para Éder Morais, presidente da Agecopa, órgão responsável pela Copa em Cuiabá, o convênio é bastante positivo. ''Em geral, o reeducando deixa a prisão, após o cumprimento da pena, sem nenhuma perspectiva. Esse programa representa uma chance para que sejam reinseridos na sociedade'', defendeu.
A capital do Mato Grosso tinha em agosto 8 presos do regime semiaberto trabalhando na Arena Pantanal. A intenção é aumentar gradativamente esse número e, em uma segunda etapa, contratar também para as obras de mobilidade urbana.
Morais explica que a seleção desses funcionários é rigorosa e conta com apoio do Poder Judiciário do Estado. Os escolhidos têm de preencher requisitos básicos, como bom comportamento na prisão. Não precisam necessariamente ter profissão. São recrutados como serventes, pedreiros, carpinteiros, eletricistas, e recebem treinamento. E, claro, quem não andar na linha é cortado do programa.
Minas Gerais conta com cerca de 30 presos do regime semiaberto nas obras do Mineirão, mas esse número deve subir bastante. ''O consórcio nos pediu 10% da força total de trabalho. O pico das obras deve ocorrer em março de 2012 e teremos mais inclusões. Creio que chegaremos a 200'', previu o secretário estadual de defesa social, Lafayette Andrada.
Os presos que trabalham no Mineirão são da penitenciária José Maria Alckmin, em Ribeirão das Neves, e o consórcio Minas Arena é responsável por levá-los ao trabalho e também devolvê-lo ao presídio após o expediente.
Itaquerão
As obras do Itaquerão também deverão ter o trabalho de ex-detentos e de presos do regime semiaberto. Acordo feito em 9 de agosto pelo presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, com o Tribunal de Justiça de São Paulo prevê a contratação de até 240 trabalhadores que passaram pelo sistema carcerário e de outros 30 que ainda cumprem pena.
No entanto, ainda não está definido quando o programa começará. As contratações para o Itaquerão são feitas pela Construtora Odebrecht - parceira do programa Começar de Novo -, que negocia com as autoridades para definir como será o programa de inclusão para a arena corintiana.

mockup