Professor disseca gírias do futebol brasileiro e português
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 1998
Chico CamargoRipa na chulipaLuiz Feijó: desvios da línguaEdmundo Inagaki 
Depois de lançar, em 1994, o livro A Linguagem dos Esportes de Massa e a Gíria no Futebol, onde relaciona e analisa mais de 200 expressões usadas por locutores, comentaristas e repórteres de rádio e televisão, o professor Luiz Cesar Saraiva Feijó apresenta agora Brasil x Portugal - Um Derby Linguístico. Na contracapa das duas publicações, o colunista da Folha, Ney Alves de Souza, fala sobre o trabalho do amigo.
Mestre aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Feijó explica que o novo livro é um desdobramento da pesquisa realizada anteriormente na imprensa brasileira. Após 30 anos estudando a linguagem especial da gíria no futebol, buscando a origem desses termos, e o comportamento da mídia na divulgação do esporte no País, resolvi estender a investigação até Portugal. O curioso é que lá os jornais e revistas são mais pródigos nas citações de modismos e neologismos. Diferente do Brasil, onde a televisão e o rádio desencadeiam maior pressão contextual nos desvios da língua. Mas, nos dois países, as alterações linguísticas traduzem a grandiosidade do futebol como espetáculo, afirma o autor.
Em Brasil x Portugal, o pesquisador destaca e comenta 129 termos e expressões, distintos entre linguagem oral e escrita. Conhecemos o significado de ficar nas covas, no lavar dos cestos, à altura dos pergaminhos, e outras particularidades lusitanas como autogolo (gol contra), milho (doping) e relvado (gramado).
Luiz Feijó também pretende registrar em breve a metalinguagem esportiva no Mercosul, buscando semelhanças e diferenças sociais na Argentina, Paraguai e Uruguai.
Para a Copa de 2002, a primeira a ser disputada no Oriente, o professor planeja o lançamento de Futebol Popular e Futebol Erudito. O livro não terá um discurso acadêmico, avisa Feijó. Quando o assunto é futebol, temos dois discursos possíveis: o épico (sobre o mito do esporte) e o romântico (representado pela linguagem oral), utilizado com muita propriedade por cronistas esportivos de renome, como Sandro Moreira, Mário Filho, Nélson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira, que deixam a marca da paixão, da emoção e da poesia em seus textos.
Serviço - Em Curitiba, os livros A Linguagem dos Esportes de Massa e a Gíria no Futebol e Brasil x Portugal - Um Derby Linguístico estão à venda na Livraria Meridional, antiga Eleotério (Rua XV de Novembro, 1057 - fone 223-2893), ao preço de R$ 10,00 e R$ 12,00, respectivamente.
FOLHA-SECA
Neologismo conceitual da gíria do futebol. Expressão surgida para designar a trajetória da bola, chutada em direção à baliza do adversário. A bola chutada perde a força e cai, deixando o traçado primitivo, tomando nova direção, como uma folha seca, enganando o goleiro. Mais um caso de metáfora impressionista. O criador dessa forma especialíssima de cobrar faltas foi Didi, do Botafogo, do Fluminense e da Seleção Brasileira.
LINHA BURRA
Expressão criada por João Saldanha e muito ouvida. Serve para explicar a colocação absurda (burra) e errônea dos defensores, em linha paralela à do fundo do campo, deixando aos atacantes as melhores oportunidades para assinalar os gols. Gíria restrita ao futebol. Trata-se de um caso de hipálage animista, pois burros são os jogadores que assim se colocam em campo (não a linha) para deter os atacantes, obedecendo, muitas vezes, as ordens do técnico.


