Rio - Professor do Instituto de Economia da Unicamp, Marcelo Proni, de 45 anos, é autor de estudo publicado em 2008 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre os efeitos da Olimpíada nas cidades-sedes. Nesta entrevista, ele cita Barcelona como exemplo de cidade que ganhou impulso após os Jogos (em 1992) e ressalta que a Copa do Mundo de 2014 vai ajudar a atrair investidores para a Olimpíada.

Destaca ainda o desafio do Rio de Janeiro em manter o setor hoteleiro aquecido, com os leitos exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), após os Jogos. Para o economista, é importante que não haja desvios de recursos destinados à saúde e educação, por exemplo, para gastos com a Olimpíada.

Agência Estado - Quais as prioridades de investimentos em infraestrutura do Rio nos próximos seis anos?
Marcelo Proni - Os Jogos são um catalisador que ajudam a legitimar investimentos do setor público e estimulam alguns do setor privado. Mas uma coisa é lidar com equipamentos esportivos para as competições e outra é investir nas estruturas que dão suporte aos Jogos, para a cidade receber milhares de pessoas. Transporte, modernização de aeroportos, metrô; tudo isso é fundamental.

AE - A proximidade entre Copa e Olimpíada pode causar algum conflito de interesse de investidores?
Marcelo - Essa sequência vai reforçar o interesse de investimento na estrutura urbana da cidade e certamente atrairá o capital privado, principalmente no setor de hotelaria. Receber dois grandes eventos num curto espaço de tempo é positivo para o Rio, pois isso cria um ambiente de otimismo, favorável à atração de investimentos públicos e privados.

AE - O governo poderia funcionar como agente financiador dos Jogos?
Marcelo - O custo da festa é patrocinado pelo Comitê Organizador, pelo COI e o marketing olímpico. O custo do local da festa, esse sim, o de investimentos em infraestrutura, deve ser bancado pelo Estado. Foi assim em Barcelona e Sydney. Está aí o exemplo da Copa do Mundo, com a ação do BNDES, que vai dar empréstimo para a construção dos estádios. Importante, se isso ocorrer também nos Jogos, é saber quem vai ficar com a dívida, quem vai pagar. Não é a fundo perdido.

AE - Os Fundos de Pensão poderiam ter interesse nos Jogos?
Marcelo - Se houver expectativa de rentabilidade, vão entrar nesse processo com certeza.

AE - Há risco de ociosidade da capacidade hoteleira após os Jogos?
Marcelo - O Rio já é cidade turística. O desafio é o que fazer para atrair mais turistas internacionais para a cidade, o que compensaria a demanda exigida pelo COI de que a cidade tenha cerca de 40 mil leitos disponíveis. Em Barcelona, por exemplo, houve um grande impulso no turismo após os Jogos de 92. A partir dali, Barcelona entrou no grupo seleto de cidades mais visitadas do mundo, superando Madri e quase se equiparando a Paris.

AE - Quais são os efeitos mais visíveis dos Jogos para a economia?
Marcelo - Os efeitos dos Jogos do ponto de vista econômico se prolongam por 10 anos. Os investimentos na construção civil, no período que antecede os Jogos, são os mais imponentes. Depois de dez anos, o impacto dinamizador acaba. Quando da realização da Olimpíada, há um impacto grande sobre o comércio e atividades da cidade que aquecem a economia.

AE - O orçamento dos Jogos pode ser superior a R$ 30 bi. Vale a pena gastar tanto?
Marcelo - As populações de Barcelona e Sydney ficaram muito satisfeitas com o resultado das Olimpíadas. Houve melhoria de qualidade de vida nas duas cidades. Um legado positivo, com muita ênfase na estrutura e reorganização urbana.

AE - Há quem questione a validade de investimento tão vultoso num megaevento esportivo por causa das condições precárias de saúde e educação, por exemplo, no País...
Marcelo - Alguns estudos estimam gastos de R$ 24 bilhões a R$ 30 bilhões para os Jogos. Esses valores podem ter um impacto bastante positivo sobre a economia carioca. Não que isso signifique transferência de recursos de outras áreas. O que não pode é o governo deixar de investir na construção de um hospital, na ampliação de uma escola, ou no aumento de salário dos funcionários públicos, e desviar esses recursos para a organização dos Jogos.

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