Público abaixo das expectativas da diretoria (cerca de 2,9 mil pessoas, para 4 mil ingressos vendidos) não significa necessariamente falta de animação por parte da torcida. Mesmo depois de um jogo de péssima qualidade, para os torcedores o Londrina começa a mostrar que a desconfiança pode dar lugar ao otimismo, entoado aos gritos depois do magro 1 a 0 sobre o Cianorte. A expectativa, depois de duas vitórias e a consolidação da liderança do grupo 11, é pela tão sonhada volta à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Mostrando certa desconfiança com um time recém-montado e que ainda não parou de contratar, os torcedores deixam para chegar ao VGD momentos antes da partida. Acomodados e esperando pela bola em jogo, começam as previsões. ''Dá sorte quando o Londrina começa jogando para o lado direito do campo para quem está na arquibancada coberta'', explicou o aposentado Jesus Pires. ''Gostei do primeiro jogo, contra o Operário-MS. Ganhou, né? Então tem que gostar... Desta vez, vai ser 3 a 0'', completou, a poucos minutos de o jogo começar.
O placar foi projetado por outros torcedores, que no entanto não tinham a mesma confiança na defesa armada pelo técnico Roberto Fonseca. ''Vai terminar uns 3 a 2. Mas não sei se o time sobe (para a Segunda Divisão)... não dá para botar fé depois de só um jogo bom (contra o Operário)'', disse Manoel Melchior, 71 anos, quase 30 deles dedicados a acompanhar o Tubarão das arquibancadas. ''Para mim vai ser 3 a 1'', disse o estudante Victor Maricato, de 16 anos, certo da ascensão do LEC à Série B. ''Tem que acreditar, né? Depois da boa estréia, acho que vai subir...''.
Truncado pelo excesso de faltas, o primeiro tempo não permitiu que os torcedores se manifestassem muito. No intervalo as reclamações se direcionaram ao preço das bebibas vendidas no estádio. O pedreiro Dirceu Gertrudes, por exemplo, teve que gastar R$ 7,50 para comprar água para os cinco filhos. ''É um absurdo. Ainda mais para ver um jogo ruim desses'', reclamou.
''Dá sorte quando o Londrina joga para o lado esquerdo do campo, para quem está na arquibancada coberta''. Algo de errado na superstição do ''Seo'' Jesus? O otimismo o fez mudar de opinião. ''3 a 0, meu filho, anota aí...''. Maricato, o estudante, também não desiste do placar elástico. ''Ainda dá tempo, vai ser 3 a 1 mesmo'', afirma.
Com o Tubarão ameaçando mais o gol do Cianorte, a torcida vê a oportunidade de gritar mais. Daí sai a maior lição que se pode tirar de um jogo de futebol: não leve seu filho pequeno para assistir a um jogo de um clube que tenta subir para a Segunda Divisão do Brasileiro se você não quiser que ele aprenda a falar palavrão.
Alegria e palavrões Mas todo sofrimento é premiado com a glória, e com a torcida do Londrina não poderia ser diferente. Pênalti aos 40 minutos do segundo tempo, que Ronaldo Marconato converte. Explosão no VGD, embora os palavrões não dêem folga na boca dos torcedores. Só muda a entonação, e o que se percebe claramente é alegria. Jogo terminado, ''Seo'' Jesus procura a reportagem para confirmar a (segunda) profecia: ''Não te falei que se jogasse para a esquerda ganharia?'' Perguntado sobre o placar, ele responde. ''Não importa. Se tivessem aproveitado as chances do começo do segundo tempo, teria sido os 3 a 0. Mas o que vale de verdade é que ganhou''. A reportagem da Folha se despede do VGD ouvindo uma reivindicação: ''Vê se escreve bem do Tubarão, heim?''.

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