Privacidade garantida
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sábado, 24 de junho de 2006
Pedro Motta Gueiros<br> Agência O Globo 
Leverkusen - Durante a campanha do penta em 2002, a delegação brasileira dividia hotéis com torcedores e jornalistas. Para o Mundial da Alemanha, prevaleceu o conceito da fortaleza defendido por Zagallo e Parreira desde que formavam a comissão técnica na Copa de 70 do México. Nas duas semanas que a seleção passou em Weggis, havia sempre uma grade a separar os jogadores do público ou da imprensa. O que se passa do lado de dentro da concentração é cada vez mais privativo.
Depois de a CBF, em seu ''site'', passar a semana anunciando que não havia qualquer problema médico, Edmílson foi cortado sumariamente na quarta-feira. No mesmo dia, Roberto Carlos e Ronaldo, este por meio de sua assessoria, informaram que haviam trocado a folga por uma noite de descanso no hotel. Horas depois, um jornal suíço publicou foto deles numa boate em Lucerna.
''Não é questão de mentira, o jogador não tem obrigação de dizer o que faz em sua vida particular'', disse o volante Emerson, que lamentou o patrulhamento dos momentos de privacidade. ''Tiramos fotos na boate para atender as pessoas que têm carinho pelos jogadores da seleção brasileira. Será que para evitar essas coisas, teremos que nos tornar antipáticos''?
O fato de ir para uma boate no dia de folga é normal e até saudável para quem vive sob intensa rotina de trabalho. O que causou estranheza entre as pessoas que acompanham a seleção foi a intenção dos jogadores de aparentar outro comportamento. ''Era para não tomar bronca em casa. Agora já levei cartão amarelo'', disse Roberto Carlos. Ninguém precisa saber o que os jogadores fazem quando não estão trabalhando, mas foram eles que se apressaram em dizer.
Com a trapalhada de Lucerna e o súbito afastamento de Edmílson, produziu-se um corte na confiança sobre o que de fato acontece dentro da fortaleza. Há quem acredite que uma meia verdade já basta para botar todas a outras sob suspeita. Assim, quando um jogador falar que o grupo está unido e que o ambiente é bom, o torcedor talvez fique desconfiado. ''Aqui a gente tem alegria por estar junto'', assegura Adriano. ''Há brincadeiras e o carinho que não sinto no clube''.
A aparência que se tem do outro lado da grade é de uma realidade cor de rosa, onde os jogadores são amigos e não há qualquer disputa de vaidade entre eles. ''Nunca trabalhei com jogadores tão profissionais, não houve nenhum problema ao longo destes três anos'', costuma dizer o técnico Carlos Alberto Parreira.
Bandeira As entradas mais ríspidas nos treinos em Weggis não quebraram a rotina de serenidade. A disputa pela bola e pela posição, entre Adriano e Edmílson, antes do corte do volante, geraram uma conversa na concentração e o discurso de amizade não foi abalada. Após o corte, os jogadores lamentaram o infortúnio do companheiro e demonstraram abatimento. Momentos depois, o bom ambiente já reinava outra vez mostrando a capaciade de superação do grupo. No treino recreativo, o capitão Cafu comemorou um gol com Robinho deitado na grama e balançando as pernas, imitando uma barata. É possível perceber a descontração até para quem fica do lado de fora da grade.
A passagem dos pentacampeões por Weggis reuniu dois mundos aparentemente perfeitos. Na Suíça e na seleção nada está fora da ordem. Internamente, sabe-se que o país omite o nome dos investidores e a origem do dinheiro que é aplicado ali. Na seleção, a transparência ainda é uma bandeira que o torceodor quer ver tremulando até o fim da Copa.


