Presidente do Foz se diz surpreso com caso Renato
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quarta-feira, 29 de julho de 1998
Edmundo Inagaki 
Os depoimentos do presidente do Foz do Iguaçu, Oneldo Luis Obregon, e do vice-presidente do conselho jurídico do Atlético Paranaense, Marcos Aurélio Coelho, prestados ontem à noite à comissão de inquérito do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Paraná, pouco revelaram sobre a origem da falsificação dos documentos do atleta Renato Albuquerque de Lima (nascido em 30 de outubro de 1979) por Cleonício dos Santos Silva (nascido em 19 de abril de 1976).
Obregon e Coelho afirmaram ao auditor do processo, José Carlos Faret, que desconheciam a dupla identidade do meio-campista Renato. O presidente do Foz do Iguaçu, clube de origem do jogador, praticamente confirmou em juízo as declarações dadas à Folha na edição de ontem. Estou tão surpreso com essa história quanto vocês. Quando ele chegou ao clube, se não me engano em junho do ano passado, levado pelo Carlos Alberto Santana, o Bebeto, não havia nenhum problema com seus documentos.
O supervisor do Foz, Genésio Antônio Camargos, conhecido como Cigano, há 12 anos trabalhando no clube e que acompanhou o depoimento de Obregon, garantiu que checou toda a documentação do jogador antes de encaminhá-la à Federação Paranaense de Futebol. Na época que o Renato veio, o Bebeto também trouxe mais uns sete ou oito jogadores do Rio de Janeiro e de Brasília para montar o time júnior que iria disputar a Copa Foz do Iguaçu. Como era o primeiro registro do atleta na Federação, verifiquei os documentos e tudo estava conferindo.
Para o presidente do TJD, Ítalo Tanaka Júnior, e o auditor José Carlos Faret, somente Cleonício poderá elucidar o caso. O depoimento do jogador está marcado para o dia 4 de agosto (terça-feira). Carlos Aberto Santana, o Bebeto, ex-jogador de futebol e responsável pelo encaminhamento de Renato ao Foz, também deve ser convocado para depor nos próximos dias. A comissão de inquérito tem 15 dias para concluir os trabalhos e remeter o processo a julgamento.
O caso de falsidade ideológica envolvendo o atleta do Atlético Paranaense corre o risco de extrapolar a esfera da Justiça Desportiva e terminar na Justiça Comum, por tratar-se de crime previsto no Código Penal (falsificação ou adulteração de documento público), sujeito à pena de reclusão (2 a 6 anos) e multa. Pela Justiça Desportiva, o jogador pode ser suspenso de 180 a 360 dias.
Se comprovada a culpa do atleta ou o envolvimento de algum dirigente de qualquer clube, o presidente do Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná, Ítalo Tanaka Júnior, garante que o processo será encaminhado ao Ministério Público. Se for comprovada a culpa do atleta, o próprio Código Brasileiro Disciplinar de Futebol (CBDF) determina que o inquérito seja remetido ao Ministério Público para que sejam tomadas todas as medidas cabíveis no caso.
Na versão sustentada pelo Atlético, ao final do Campeonato Paranaense, Renato teria tido uma crise de consciência, acabando por revelar toda a trama. Desempregado como ajudante de pedreiro e com a família passando por necessidade financeira no subúrbio de Campo Grande, Rio de Janeiro, Cleonício dos Santos Silva teria falsificado uma carteira de identidade, com o nome de Renato Albuquerque de Lima, sendo levado por Bebeto para os juniores do Foz.
Ainda no ano passado, Renato teria sido indicado para a Seleção Brasileira Sub-20, mas comentários de que se tratava de um gato (na gíria do futebol, jogador que adultera a idade para atuar nas categorias menores) fez com a comissão técnica da CBF perdesse o interesse, o que teria levantado as suspeitas entre os dirigentes rubro-negros.
Bebeto, que foi zagueiro do Flamengo, Matsubara, Gama (DF) e do próprio Foz do Iguaçu, garante que não sabia da dupla identidade de Renato. Depois que vi ele jogar uma pelada na várzea lá de Campo Grande, achei que tinha futuro. Nem cheguei a conversar muito com ele, nem conheci muito a família, nem nada. Falei que poderia levá-lo para o Foz, onde já havia encaminhado outros jogadores. Lembro que ele me mostrou um protocolo de carteira de identidade, que ainda não estava pronta, e assim o Renato começou a jogar lá. Nunca imaginei essa história de identidade falsa, apesar de muita gente estar falando por aí que fui eu quem contei tudo.


