Bergisch Gladbach - Ao trocar cinco jogadores para o jogo contra o Japão, o técnico Carlos Alberto Parreira embaralhou as cartas. Diante das dificuldades de comparar atuações individuais em equipes diferentes, a escalação para a partida contra Gana nas oitavas-de-final só será conhecida na véspera do jogo de terça-feira. A vontade de ficar no time faz com que os jogadores abram mão da posição que ocupam em seus clubes. Salvo o goleiro Dida e o atacante Ronaldo, todos os outros assumem tarefas diferentes quando vestem a camisa amarela. ''Na seleção é assim mesmo, todos têm que se sacrificar pelo conjunto'', afirma o lateral-direito Cafu, que joga na mesma posição em que atua no Milan, mas com orientação diferente.
Na seleção, os laterais não podem apoiar ao mesmo tempo. Diante de um esquema com quatro jogadores ofensivos, Cafu e Roberto Carlos devem ser primeiro defensores. As subidas ao ataque, principal qualidade do reserva Cicinho, não são prioridade. Diante de um time que costuma marcar a saída de bola do adversário, como Gana, a volta de Cafu é uma certeza mesmo antes de Parreira confirmá-la. ''Claro que o Cafu volta. Ele é o capitão'', disse Cicinho após a goleada sobre o Japão por 4 a 1.
A facilidade do último jogo não acabou com o sacrifício de alguns jogadores. Kaká admite que, na seleção, precisa ajudar mais a defesa do que no Milan, onde fica mais perto dos atacantes. A boa forma do apoiador o faz superar seus limites e renunciar ao brilho individual com o prazer de quem sabe a importância de servir ao conjunto. ''Aqui, o mais importante é o empenho pelo objetivo comum que é a conquista do título. Não importa se um está se destacando mais do que o outro. Essa avalaliação, do que deu certo ou errado, só pode ser feita no fim'', observa o apoiador.
Na defesa, Lúcio e Juan se destacaram como dois dos mais regulares jogadores do Brasil na primeira fase. Apesar de já terem formado dupla no Bayern Leverkusen, os dois mudam a postura quando vestem a camisa da seleção. Segundo Juan, a cultura do futebol brasileiro faz a mesma dupla atuar de forma diferente. ''Na Europa, cada um tem sua função e está obrigado a desempenhá-la 100%. Se o time ganhar, deve-se a isso. Mas se o jogador que você está marcando fizer o gol, aí a culpa é sua'', conta Juan, antes de apontar as mudanças de comportamento dos mesmos zagueiros na seleção. ''Aqui nós nos falamos mais, um jogador se oferece para ajudar em caso de dificuldade do outro''.
O esquema também transforma os volantes. Em seus clubes, Zé Roberto e Emerson são jogadores de marcação, mas com liberdade de ir à frente e até tentar fazer gols. Devido a formação do quarteto ofensivo, os dois têm se limitado à proteção dos laterais e zagueiros. ''Se tiver uma chance, vou tentar aproveitar'', avisa Zé Roberto, que fez o gol do título da Copa América de 97 e voltou a marcar um gol importante contra o Paraguai nas últimas Eliminatórias. ''Como nosso time joga muito ofensivamente, sei que minha função é basicamente defender. Se eu fizer isso bem, já estou satisfeito. Com quatro na frente, se subir mais gente podemos correr riscos''.
Ronaldinho Gaúcho, segundo Parreira, tem a mesma liberdade criativa da qual desfruta no Barcelona. Mas o jogador já admitiu que está atuando em função diferente da que cumpre no clube. ''Não estou acostumado, todos têm que ajudar mais'', disse ainda no início da Copa. ''É preciso estar com os pulmões a 100% e se adaptar rapidamente. Tenho prazer de ajudar a seleção dessa forma''.
O mesmo Por mais que falem de seu peso e mobilidade, Ronaldo é um jogador que não muda quando veste a camisa da seleção. Desde 1998, marcou 14 gols nos 17 jogos que disputou em Copas do Mundo. Sua posição, de artilheiro mais fixo entre os zagueiros, está garantida pelos números e pelas intenções do técnico. Adriano vai ter que se mexer para voltar ao time depois de mais uma boa atuação de Robinho. Para jogar ao lado de Ronaldo, o atacante da Internazionale renunciou às características, abriu pela direita, voltou para marcar, ficou mais longe do gol e da vaga de titular.
Já Robinho, que começou a Copa como reserva, parece mais dentro do que fora do time. Além de entrar no decorrer dos dois primeiros jogos, atuou durante toda a última partida. Quando está em campo, a seleção muda sua maneira de jogar, e Robinho também. Entre tantas adaptações, nem ele é o mesmo jogador que forma o ataque com Ronaldo no Real Madrid. ''Acho que individualmente cada um pode perder um pouco, mas o conjunto se fortalece. No clube eu jogo mais na frente. Já na seleção tenho liberdade para voltar e iniciar as jogadas'', afirma.

"Não importa se um está se destacando mais do que o outro" Kaká meio-campista do Brasil

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