Portugueses divulgam festa do Descobrimento nas ruas de São Paulo
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quinta-feira, 30 de dezembro de 1999
Por Paulo Guilherme 
São Paulo, 30 (AE) - Houve um tempo em que Portugal era sinônimo de vitórias na Corrida Internacional de São Silvestre. Manoel Faria (56 e 57), Carlos Lopes (82 e 84), Rosa Mota (81, 82, 83, 84, 85 e 86) e Aurora Cunha (88) ganharam a tradicional prova de pedestrianismo em uma época em que os quenianos ficavam longe das ruas da capital paulista. Este ano, um grupo de três corredores portugueses estão em São Paulo com uma missão especial: diplomacia.
Paulo Guerra, campeão europeu de cross country, e os gêmeos Domingos e Dionísio Castro foram enviados ao Brasil pela Comissão de Descobrimentos de Portugal. Os três vão correr com um logotipo dos 500 anos do descobrimento do Brasil estampado na camisa.
Uma vitória em uma data tão significativa seria o ideal para o sucesso da missão, mas eles reconhecem que vai ser difícil bater os africanos. "Se não ganhar um português, que pelo menos a vitória seja de um brasileiro", diz Dionísio.
As chances dos europeus são mínimas. Desde a vitória de Carlos Lopes em 1984, ano em que o português ganhou também a medalha de ouro na Olimpíada de Los Angeles (EUA), nenhum corredor da Europa venceu a tradicional prova brasileira.
Estafa - Eles chegaram hoje pela manhã a São Paulo esgotados por uma maratona de competições. A São Silvestre será a quarta corrida de longa distância que Paulo Guerra vai fazer este mês. Participou de duas provas de cross country e domingo passado estava correndo uma prova de 10 km.
As dores musculares perturbam o corredor cotado como um dos melhores fundistas da Europa. "Em condições normais, bem preparado e descansado, eu teria chances de disputar o primeiro lugar com os quenianos", jura Paulo Guerra.
Ele explica que nos últimos anos os portugueses deixaram de vir a São Paulo porque a São Silvestre da Cidade do Porto, que é realizada no dia 26 dezembro, passou a ser mais importante no seu país. "Mesmo assim, percebemos que seria um absurdo se Portugal não fosse representada nesta São Silvestre brasileira"
destaca Guerra.
Apesar do cansaço da viagem, os irmãos Castro esbanjam bom-humor. Gêmeos idênticos, os dois dizem ter uma tática especial para chegar à vitória. "Nossa estratégia é simples: eu corro metade do percurso e depois o meu irmão entra no meu lugar e corre o restante", brinca Domingos. O corredor revela que aprendeu muitas piadas de português com o brasileiro Zequinha Barbosa. "Ele é campeão nas piadas", diz.
Os portugueses afirmam que nos últimos cinco anos o atletismo brasileiro evoluiu muito nas provas de longa distância. Mesmo assim, consideram desigual a concorrência com os atletas do Quênia. "Há 15 anos, nos tempos do Carlos Lopes, havia uma meia dúzia de africanos com alto nível de competitividade", salienta Guerra. "Hoje são mais de mil espalhados pelo mundo, sendo no mínimo uns cem com muito talento."
Para se ter uma idéia, nos últimos dez anos, Guerra foi o único atleta não-africano a ir ao pódio em uma corrida de cross country. "Os corredores do Quênia vivem em uma altitude de 3 mil metros, são bem dotados fisicamente, e desde pequenos estão habituados a longas caminhadas de casa para a escola, a igreja e o trabalho", comenta. "Para eles, andar 15 km para ir de um lugar a outro é a coisa mais normal do mundo."


