Marienfeld - ''Viemos aqui para jogar e não para falar''. A curta e conclusiva declaração de Figo, ontem à tarde, definiu bem o sentimento que dominava os jogadores de Portugal após dois dias de guerra de nervos, num intenso bate-boca mundial através da imprensa com ingleses e até com brasileiros. A adrenalina baixou e a revolta contra as notícias consideradas desfavoráveis, divulgadas nos últimos dias, parecem sob controle e a delegação portuguesa voltou a viver momentos de paz em Marienfeld.
Na tradicional entrevista coletiva que antecede aos treinamentos da equipe num dos campos do Hotel Klosterpforte, um mosteiro erguido em 1185 e transformado numa das mais belas concentrações da Copa do Mundo, os jogadores escolhidos, Figo e Costinha, pareciam de espírito desarmado. Tranquilos, os dois falaram sobre as expectativas do jogo contra Inglaterra sem a tensão da véspera, quando bastaria uma faísca para incendiar a tenda montada para os jornalistas pela Federação Portuguesa.
Sobre as polêmicas criadas com declarações às vezes mal-interpretadas, como as de Parreira em relação ao jogo Portugal x Holanda, ou reportagens sensacionalistas feitas pela imprensa inglesa, Figo deu uma visão que foi encarada como pacificadora. ''Nós vivemos nosso dia-a-dia normalmente aqui dentro e por mais que as notícias surjam, algumas até falsas, não nos afetam. Nem nos vão tornar mais unidos porque já somos unidos há muito. Isso tudo fica à margem da nossa convivência'', disse Figo.
Em relação à seleção brasileira, envolvida na cauda do furacão que varreu a concentração portuguesa, por causa de uma entrevista-fantasma de Pauleta a um site inglês, Figo também deu declaração sensata. ''Nós portugueses e os brasileiros temos primeiro que pensar em ganhar nossos jogos para depois pensarmos uns nos outros.''
Um dos mais experientes da seleção portuguesa, Figo também driblou uma possibilidade de ataque às arbitragens. Uma das preocupações de todos na seleção de Portugal era de que os juízes fiquem contra a equipe por causa das declarações do russo Valentim Ivanov, que apitou o jogo de domingo, de que Portugal é uma equipe desleal. ''Acredito que aqui estão os melhores juízes do mundo e que todos querem chegar à final da Copa. Na minha opinião não estão aqui para prejudicar ninguém. Nosso time é um time normal. Aquele jogo foi atípico.''
Apesar do tom conciliatório dos dois jogadores, a delegação portuguesa continua em pé-de-guerra com Ivanov. Um dirigente português denunciou ter visto dirigentes holandeses entrando e saindo do vestiário do juiz, em Nuremberg, o quê, segundo a Fifa, seria proibido. Esta seria, segundo o dirigente, a razão de o juiz ter sido dispensado da Copa e enviado de volta à Rússia: ter permitido a presença de estranhos no seu vestiário.
Esse tipo de problema, no entanto, está bem longe dos jogadores. Em sua última Copa do Mundo, Figo encara com expectativa a sequência do Mundial. Mas afirma que ter chegado à fase em que Portugal chegou já é motivo de orgulho para todos.
''Cada jogo pode ser o último para mim. Não sou eterno. Mas a nossa trajetória foi fantástica. Minhas expectativas foram todas atendidas. Se tivéssemos saído na primeira fase, seria uma decepção muito grande. Estou orgulhoso de ter alcançado o que alcançamos. As coisas na vida não vêm com facilidade e estamos felizes pelo patamar que atingimos'', disse Figo. ''Nada vai apagar o que foi feito em 66. São épocas diferentes e cada equipe traça a sua história.''
Sobre o adversário de amanhã, Figo tem boas lembranças. Assim como o técnico Luiz Felipe Scolari, em dois confrontos ele saiu vitorioso em ambos. ''Para mim não é revanche, não tenho este espírito. Todos sabemos da importância do jogo e que eles têm um time forte. Sabemos como cada um dos jogadores ingleses joga e temos de estar o mais preparados possível no aspecto emocional.''

mockup