POR QUÊ, LÉO?
Meio-campista do Milan passa da empolgação ao desânimo em menos de 24 horas e decide abandonar a Seleção Brasileira
Jogador alega más condições físicas, clima de futilidades, decepção por não ter sido escolhido capitão e uma realidade social angustiante
Albari RosaLeonardo, durante a entrevista coletiva em que anunciou sua saída da Seleção a menos de uma semana da Copa América: O sistema futebol é tão estressante que não tem tempo de ver o social
Rogério Fischer
e Paulo Briguet
Quarta-feira, por volta de meio-dia. Recém-chegado de outro treinamento físico-tático no Estádio do ABC, o meio-campista Leonardo toma o lugar de Wanderley Luxemburgo em mais uma burocrática entrevista à imprensa no luxuoso Hotel Bourbon. Orgulhoso, comenta o suposto interesse do Flamengo em seu passe. Empolgado, confessa que não acreditava em uma nova convocação para a Seleção. Descontraído, revela estar se sentindo muito bem jogando na posição definida pelo treinador. Bem-humorado, troca elogios e figurinhas com Cafu sobre quem seria o escolhido como capitão da equipe na Copa América. Eu ou o Cafu, qualquer um exerceria muito bem a função, diz ele, destacando, ainda, outros colegas preparados e experientes do elenco.
Ontem, 11 da manhã. Visivelmente abatido, Leonardo entra na mesma sala do Bourbon - acompanhado de Luxemburgo e novamente de Cafu - para protagonizar a mais bombástica entrevista da Seleção desde que a equipe chegou a Foz. O jogador do Milan anuncia que está deixando a Seleção (Luxemburgo chamou Beto, do Flamengo, para seu lugar).
Falou mais - e muito. Foram quase duas horas de perguntas cujas respostas, explicando a decisão, iam do cansaço físico, esbarravam no cansaço mental de conviver com futilidades, passavam pela frustração de não ter sido escolhido capitão do time (Cafu foi o designado) e atingiam a angústia de constatar uma realidade social caótica no País da bola. Eram sempre respostas genéricas, quase filosóficas, mas sempre vagas para quem queria saber apenas uma coisa: por quê? Algumas frases de Leonardo:
- O calendário do futebol é muito desgastante. Me dou o direito de estar cansado. Quando senti não estar com 100% das minhas condições, falei: É agora.
- Criei a expectativa de participar de um novo projeto, de fazer algo mais. Ser uma referência. Esse projeto era minha motivação maior. Com a escolha do capitão, descobri não ter a confiança total de uma comissão técnica, e tive convicção de minha decisão.
- O sistema futebol é tão estressante que não tem tempo de ver o social. É mais importante ganhar a Copa América do que ver o lado social. O objetivo fica naquele o ganhar, o vencer. As coisas da Seleção poderiam ser passadas de outra maneira.
Leonardo saiu às 14h30 do Hotel Bourbon, onde a Seleção Brasileira está concentrada. Nenhum dos coordenadores técnicos da delegação o acompanhou até o Aeroporto Internacional de Foz. O jogador estava de óculos escuros e, contrariando seus hábitos, preferiu não dar autógrafos às fãs que o esperavam à saída do hotel. Sem dar declarações, Léo esqueceu sua bolsa fora do carro da CBF. Um segurança teve que colocá-la pelo vidro de trás do carro que o transportou ao aeroporto.
Na sala VIP do aeroporto, depois de alguma insistência, Leonardo concordou em falar mais sobre sua decisão.
- Eu não estava feliz aqui. Não era justo continuar. Sei que errei ao aceitar a convocação, mas erraria ainda mais ficando.
Segundo Leonardo, a idéia de Seleção Brasileira está cercada de uma série de práticas viciadas. Mas ele preferiu não dizer quais.
- Se eu tivesse chance de mudar alguma coisa, ficaria. Como não tenho, prefiro ir embora. Quem busca muitos porquês, como eu, acaba tendo problemas.
Um exemplo dado por Leonardo foi a recente entrevista de um garoto na TV.
- Quando perguntaram por que o menino queria ser jogador de futebol, ele respondeu que era para ter uma Ferrari. Alguma coisa está errada aí. Não estamos dando um bom exemplo para as crianças.
Sobre o fato de não ser escolhido capitão do grupo, Leonardo afirmou que não pretendia exercer a função por vaidade.
- Para mim, ser capitão não é vaidade, é um conceito. E eu não pude levar adiante esse conceito dentro da Seleção.
O jogador lamenta ter que abandonar o time neste momento de preparação para a Copa América, e garantiu estar ciente dos prejuízos que isso pode causar para o grupo.
- Eu me preocupo com a Seleção. O que eu fiz não é exemplo para ninguém, mas é o preço de estar sendo sincero. Adoro a Seleção, mas talvez eu não a mereça.





