Maranello, Itália, 03 (AE) - O autódromo Enzo e Dino Ferrari tem a "colina da paixão", pequena elevação gramada, localizada pouco antes da reta dos boxes. O circuito particular da Ferrari, em Fiorano, na mesma região da Emília, não conta com nenhuma montanha ao redor, mas os mais fanáticos torcedores da "Scuderia di Maranello" também dispõem de um lugar para expressar sua devoção: "a ponte da paixão."
Jovens estudantes, executivos, motoristas, de carros e caminhões, donas de casa, aposentados e até policiais têm presença certa na ponte da paixão na via Abetone Inferiore. Basta o ronco do motor do carro de Fórmula 1 reverberar pelas ruas das minúsculas cidades de Maranello ou Fiorano, separadas por uma rua, para uma pequena multidão disputar os melhores pontos de visão da pista.
Hoje as únicas curvas que ofereciam visibilidade eram as duas mais próximas da ponte da paixão. A névoa e o frio eram tão intensos que Rubens Barrichello quase não pôde treinar. Mas nada parece impedir esse devotos de demonstrarem sua fé. "Trouxe os meus filhos para ver a Ferrari", disse Gianfranco Petroni, operário em período de férias. As crianças são educadas, ou doutrinadas, desde cedo: Carla tem quatro anos e Giuseppe seis.
Enquanto acompanham a evolução do carro, os frequentadores da ponte da paixão conversam ativamente. "Barrichello fará mais que Irvine", aposta Valter Lazzetti. Esse é, em geral, o sentimento dos italianos, de que o piloto brasileiro conseguirá melhores resultados que Irvine. O estudante Stefano Paolini, de 22 anos, não se contenta em apenas ver a Ferrari de cima da ponte da paixão. Ele convida o jornalista para um posto mais avançado, próximo dali: a cerca que delimita a pista de Fiorano.
"Suba nela e veja como o carro passa perto", propõe. Agora, segundo o estudante, o melhor: "Quando a Ferrari passar aqui sinta o ronco do seu motor." O jovem utiliza o termo sentir e não ouvir o som do motor, como se fosse uma frase musical, capaz de elevar quem a escuta.
Ao mesmo tempo em que o som (dizer ruído seria uma heresia) do motor V-10 da Ferrari sugere reflexão, segundo o estudante, os muitos caminhões que trafegam pela ponte da paixão procuram desviar dos veículos estacionados e até dos pedestres, nada atentos aos perigos de um atropelamento, mas inteiramente absorvidos pelas emoções proporcionadas pela Ferrari.
Há uma diferença, porém, no comportamento dos motoristas que desejam prosseguir viagem e são, de alguma forma, atrapalhados pelos que estão na ponte: eles não buzinam ou xingam, comportamento comum na Itália. Aí também parece manifestar-se o amor, senão o respeito, pelos tifosi que estão lá, sem o menor conforto, mas em devoção à Ferrari, à Maranello, à Emilia e à sua nação.

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