O futebol faz parte da vida de Londrina desde os seus primeiros dias, até mesmo antes do povoado se transformar em município, em 1934, e trilhou um caminho que passou pelo varzeano e amadorismo até chegar a era do profissionalismo, que teve como auge a fundação do Londrina Esporte Clube, em 1956.
A história repleta de nomes, times e causos está retratada na monografia "Entre Pás e Picaretas: o quebra canela do futebol menor nas páginas do Paraná Norte e Folha de Londrina – 1934-1953", de autoria do educador físico André Xavier da Silva, em um trabalho de pós-graduação, ligado ao grupo de estudos "História do Esporte e Lazer em Londrina – 1930/1960", do Centro de Educação Física e Esportes da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Paulista, radicado em Londrina há oito anos, o historiador sempre foi um apaixonado pelo futebol e buscou nas páginas dos dois periódicos os primeiros registros de bola rolando no chão batido da terra vermelha. "Queria ir além da história oficial, daquele futebol só praticado pelas elites e da transição do amadorismo para o profissionalismo", revela.
O título do trabalho homenageia o primeiro time a que se tem notícia em Londrina. Composto integralmente por negros operários que trabalhavam na construção da ferrovia São Paulo/Paraná, o pioneiro Pás e Picaretas de 1932, que tem uma foto no arquivo do Museu Histórico de Londrina. Todos os integrantes moravam em um conjunto de casas que ficava abaixo da rodoviária. "Os símbolos da equipe remetem a ideia do trabalho e ao mesmo tempo era um time que simbolizava a luta dos trabalhadores, um movimento de olho na questão política", explica Silva.
O primeiro campo de futebol da cidade já constava na planta inicial do município, confeccionada pelo geodesista da Companhia de Terras Norte do Paraná, Alexandre Razgulaeff, e remete ao ano de 1932. Era conhecido como o Alçapão do Esporte ou o campo da quadra 26, localizado hoje onde se encontra a Cooperativa Integrada, na Avenida Celso Garcia Cid. "É uma prova que os ingleses que chegaram aqui já reconheciam a prática do futebol. Por outro lado, colocaram o campo no último limite do município. O campo ficava fora do espaço urbano onde se encontrava também a zona do meretrício, a delegacia e o cemitério", relata. "Os quatro elementos não compunham a estética de higiene da cidade", acrescenta. O último registro da existência do campo é de 1951, quando no local se instalou a Cooperativa Cotia.
A rivalidade entre torcidas e atos de violência, tão comum hoje em dia, foi publicada nas páginas do Paraná Norte em 14 de outubro de 1934, no primeiro jogo que se tem notícia na cidade. Os times juvenis de Londrina e Jatay, posteriormente Jataizinho, se enfrentaram em duas partidas. Aqui, 3 a 0 para os donos da casa. Na volta, a o confronto não chegou ao fim. "A torcida começou a atirar pedras e cascas de banana nos londrinenses, que tiveram que abandonar o campo e fugir de caminhão", relembra o pesquisador.
O trabalho mostra ainda um jogo inédito entre os colonos ingleses e a comunidade alemã, que residia na região do Heimtal, zona norte. "O time alemão era misto e talvez por isso não foi páreo. Perdeu por 12 a 1", conta o historiador.
Em uma época em que o futebol tinha pouco espaço nos jornais e divida notas com tênis e tênis de mesa, foi noticiado a criação da Liga Atlética Norte do Paraná, que resultaria na atual Liga de Futebol de Londrina, em 1936. A primeira competição oficial começou em 13 de agosto de 1942. A cidade teve mais de 60 times nos seus primeiros 20 anos de vida, a maioria deles oriundos dos colonos, trabalhadores, estudantes e da igreja. "Nomes como Corinthians, Santos, Bangu remetiam às origens dos fundadores das equipes".
PROFISSIONALISMO
O futebol em Londrina nos seus primórdios era dividido entre varzeano e amador. O varzeano, chamado também de quebra canela, futebol menor, cascudo e extraoficial, e o amador, que agrupava os times filiados, da elite e das associações. A diferença também era notada na vestimenta.
Os varzeanos usavam sacos de estopas como camisas, já o amadores, atuavam de brim. "Os registros mostram que o varzeano atraia mais gente, justamente porque era jogado com mais prazer, mais paixão", relata.
O processo de profissionalização começou a ser pavimentado a partir de uma briga com a Federação Paranaense que levou a Liga Norte a se tornar Liga Regional de Futebol de Londrina. Colaborou também o início da prática de pagamento de cachês para alguns jogadores do amador – o chamado amadorismo marrom - a partir da década de 1950, e a vinda de atletas e treinadores de São Paulo e Curitiba.
Outro fato importante foi o convite ao primeiro grande nome do futebol brasileiro: Arthur Friedenreich. "Ele estava no fim de carreira e foi trazido pelo São Paulo para uma festa no Clube Redondo e depois assistiu um jogo no Aquiles Pimpão, nome inicial do VGD", conta Silva.
Juntamente com a Criação do Conselho Municipal de Esportes havia também uma pressão da imprensa por profissionalizar o futebol na cidade. Nomes que já se destacavam no futebol amador naquele momento fariam parte da história do Tubarão como os irmãos Jaci e Jorge Scaff e Jacob Bartolomeu Minatti.
"Todos estes elementos vão compor um cenário de profissionalismo. A imprensa fazendo o discurso, criticando os jogadores camiseiros (que mudavam de time conforme a oferta), a mal preparação das equipes", revela. "Não é só o fato de ter um time lá em Rolândia, de fazer caravana aqui para assistir jogo lá, não é só isso. Todo este pano de fundo até chegar ao Londrina está sendo construído".
Se o futebol amador hoje é tão desprestigiado e sobrevivi graças a alguns abnegados, não se pode tirar o valor de ter contribuído de forma decisiva para a construção da história e da cultura esportiva de Londrina.

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