Pilotos desaprovam percurso do Paris-Dacar-Cairo
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2000
Por Julio Cruz Neto (Especial para AE) 
Cairo, 24 (AE) - Foi quase uma unanimidade entre os pilotos o descontentamento com o percurso do rali Dacar-Cairo, que terminou no último domingo. Mas o organizador da prova, o francês Hubert Auriol, não se comoveu nem um pouco, dando a entender que talvez continue escolhendo as mesmas trilhas: rápidas, e portanto perigosas, mas tecnicamente fáceis, com dunas pouco desafiadoras.
Para o Dacar 2001, o que se sabe por enquanto é que voltará a ter largada no dia 1º de janeiro: "Mudamos nesse ano (para 06 de janeiro) por causa do bug e porque era um reveillón especial, mas não há por que alterar a tradição." No entanto, Auriol deu outras dicas na entrevista coletiva realizada após o fim da prova, no Cairo.
Atendendo a reclamações dos pilotos, o percurso não deverá mais levar a caravana de lugares quentes para lugares frios - no Dacar-Cairo, a gélida Líbia ficou para o final. Dessa maneira, pode ser que o rali volte a ter seu percurso tradicional, começando em Trípoli, capital da Líbia, e seguindo em direção ao oeste, rumo a Dacar.
Até porque tudo correu bem na Líbia - havia certo receio em função do embargo internacional que isolou o país do resto do mundo e o fez perder o Dacar desde o início dos anos 90. Quanto ao Níger, a suposta ameaça terrorista que parou o Dacar-Cairo fez dele uma incógnita. Auriol já havia dito que pretendia voltar para lá, mas está cauteloso: "Precisaremos analisar a situação."
Cautela é o que ele não tem ao comentar as reclamações dos pilotos em relação às trilhas do Dacar-Cairo - foi tão fácil que pela primeira vez na história, um side car chegou ao fim. "O Dacar nunca é o mesmo", disse Auriol: "Os pilotos são responsáveis pela velocidade. Se quiserem, podem ir mais devagar. Não é problema meu."
A alemã Jutta Kleinschmidt, quinta colocada entre os carros, com um Mitsubishi, acha que foi muito fácil: "O espírito geralmente é tentar terminar a prova, mas a maioria terminou. Não é só culpa da organização, porque quatro etapas foram canceladas, mas mesmo assim as outras foram fáceis. Minha vó poderia fazer." Jutta sugere que o Dacar passe pela Mauritânia, como no ano passado: "É legal. As dunas são difíceis." E acha que o percurso desse ano favoreceu os velozes bugues do francês Jean-Louis Schlesser, campeão pela segunda vez consecutiva.
Schlesser foi um dos poucos que destoaram da chiadeira. Mas até seu compatriota Richard Sainct, bicampeão entre as motos com uma BMW, disse que "foi muito fácil, claro". Sainct diz ter ficado desapontado porque não houve dificuldades de navegação: "Não foi o melhor Dacar." Para a alemã Andrea Mayer
da mesma equipe de Sainct, não foi sequer um Dacar: "Não houve uma etapa como no ano passado, com ervas de camelo." Ervas de camelo são montes de areia traiçoeiros, que parecem macios, mas são duros porque se formam em volta de plantas. Andrea, que teve um problema de motor na antepenúltima etapa e acabou perdendo o primeiro lugar entre as mulheres para a portuguesa Elisabete Jacinto, acha que foi bom para os amadores: "Muitos que nunca tinham completado a prova, dessa vez conseguiram."
É o caso da própria Elisabete, que na terceira tentativa enfim chegou lá, pilotando uma moto KTM. A simpatia em pessoa, essa portuguesa de Lisboa acha difícil analisar o pecurso porque
como nunca terminou, não tem muita experiência. Ela acha que as quatro etapas canceladas seriam mais duras e que as outras foram difíceis por serem longas. Mas mesmo assim, pretende fazer mais um Dacar, de preferência completo: "Eu terminei esse, mas fica a dúvida se teria conseguido com mais quatro dias." Depois, quer parar para levar adiante um projeto bem mais tranquilo: "Quero ter filhos." Seu marido, que sempre a acompanha fazendo o papel de mecânico, agradece.


