Petterson parte para novas manobras
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de outubro de 1998
Marcos Freitas 
Depois de radicalizar nas ondas na Barra da Tijuca, no último domingo, quando venceu o australiano Michael Campbell, Petterson Rosa, 24 anos, atual campeão da etapa brasileira do World Championship Tour (WCT), circuito profissional de surfe, estará domando as ondas em Portugal. Desde ontem, ele representa o Brasil em uma das maiores competições do surfe amador mundial.
O surfista que iniciou carreira em Matinhos, litoral paranaense, conquistou o título do Rio Marathon Surf ao fechar a bateria decisiva do WCT com uma manobra mais que radical. Simplesmente deu um aéreo - manobra em que o surfista e a prancha voam sobre a onda - perfeito, arrancando aplausos e gritos da torcida presente.
Rosa está disputando neste final de semana, na praia de Carcavelos, a etapa lusitana do Circuito Mundial de Surfe Amador, esbanjando felicidade com a inédita conquista. Fiquei amarradão em vencer no Rio, disse. Corria há seis anos e já estava agoniado por nunca ter ganho, conta. Quero agradecer a Deus, à minha avó que mora em Matinhos, ao pessoal da HD que sempre me apoiou e a todos os meus brothers do Paraná, que é a minha verdadeira casa diz ele, empolgado.
Petterson nasceu em Guarujá, litoral de São Paulo, mas foi para Matinhos com oito meses de idade. Foi criado pela avó, Dona Iracema, que no final de semana passado estava em Aparecida do Norte rezando pelo neto. Petterson se considera paranaense de coração e sempre que pode alardeia seu amor pela terra dos pinheirais e do chão vermelho.
De origem simples, começou a surfar com nove anos de idade. Mas ele confessa que um pouco antes começou a dar as primeiras remadas em cima das tradicionais pranchas de isopor. Hoje, dono de um estilo inconfundível e agressivo sobre ondas, Petterson é respeitado e tido como um dos grandes nomes do esporte no Brasil.
Personagem de uma sátira feita pelo grupo de humor Os sobrinhos do Ataíde, diz que não liga que tenha sido o inspirador do Petersson Foca - um surfista, bronco e atrapalhado que só se mete em situações delicadas e engraçadas. Deixa que ele zoem de mim, diz. Enquanto isso eu arrebento as ondas, que é o que sei fazer, conta. Só acho que eles retratam um personagem que, na verdade, não tem nada a ver comigo e isso pega mal pois todos pensam que os surfistas são iguais ao personagem criado por eles, complementa, um pouco contrariado.
De saída para o aeroporto de Curitiba, onde iria para São Paulo pegar o vôo que o levaria para mais uma aventura no mundo do surfe, Petterson recebeu a Folha e falou um pouco de sua vitória no WCT, de sua vida e planos para o futuro.
Folha - Como foi vencer uma etapa do mundial e logo aqui no Brasil?
Peterson - Fiquei amarradão. Corro atrás deste título há seis anos e estava agoniado. A vitória foi um desabafo. Fiquei muito feliz e acho que merecia.
Folha - E aquela última manobra? Você conseguiu dar um aéreo perfeito e dificílimo. A bateria já estava acabando, não era meio arriscado?
Petterson - Era muito arriscado, mas eu precisava de uma boa nota, 6.60 para virar, e a bateria já estava no fim. Naquela hora eu estava muito concentrado, eu voltava de uma rasgada na junção, me lembro que estava superconcentrado e falei para mim mesmo: agora vai. E foi. Quando vi na TV, nem acreditei que a manobra saiu tão perfeita e com um estilo tão legal.
Folha - Onde você está morando atualmente?
Petterson - Na verdade estou morando no mundo. Fico um pouco em Matinhos, estou construindo uma casa em Florianópolis, onde pretendo morar no futuro. Mas com os campeonatos eu fico um pouco em cada lugar. Principalmente nos aeroportos e hotéis.
Folha - Em que você se inspirou para ser surfista?
Petterson - Nas antigas eu gostava do Tom Curren. Hoje eu acho o Kelly Slatter e o Michael Campbell os melhores do mundo. Dos brazucas, eu gosto do Fabio Gouveia e do Neco Padaratz.
Folha - Quando será a última etapa do WCT?
Petterson - Vai ser no dia 5 de dezembro em Pipeline, no Havaí.
Folha - Para você, quem é o favorito para levar o título deste ano?
Petterson - Como a final acontece no Havaí, o Slatter leva 50% de vantagem. Mas vou dar tudo para subir ainda mais no ranking. Gosto de Pipeline, já surfo lá há mais de dez anos e estou preparado para quebrar as ondas.
Folha - Como é a sua preparação física e mental? Você pratica algum esporte além do surfe?
Petterson - Sim. pratico a Power-Yoga. Que me ajuda no espírito e no corpo. Ando de bicicleta, nado e corro sempre.
Folha - Qual é a melhor prancha de surfe?
Petterson - É a aquela que faz tudo o que você quer.
Folha - Quais são os seu planos para o futuro?
Petterson - Pretendo surfar até os 30 anos, dar continuidade à minha marca de roupas e equipamentos para o surfe, a Brothers Rosa. Tenho um sonho de abrir uma escolinha de surfe em Matinhos e em São Francisco do Sul (SC). Quero ajudar a rapaziadinha a sair da marginalidade e entrar para o mundo dos esportes. Acho que a gente veio para o mundo para fazer algo de bom para quem mora aqui, não é?
Folha - E as finanças, como estão ?
Petterson - Vão bem. Não gosto de falar de grana. Mas posso dizer que hoje vivo bem graças ao surfe. Mas tudo é resultado de muito trabalho.
Folha - Você votou na última eleição?
Petterson - Não votei, estava viajando.
Folha - Votaria para quem?
Petterson - Não votaria para ninguém. Não acredito nos políticos. Eles só roubam o País. Eu viajo por todos os lugares do mundo e vejo que, se não fossem os políticos, estaríamos numa boa. Temos um potencial incrível, o povo é alegre e lutador, mas o que estraga são os políticos que só pensam em nos roubar.


