‘‘Rola frio, fome, stress, medo, adrenalina... No escuro, cansado, você se perde mais facilmente: É um ambiente literalmente cavernoso!’’, definia o mineiro Elton ‘‘Urso’’ Gomes, da equipe Comboio Brasil, a prova PETAR 2001, o Desafio das Cavernas, valendo como a 2ª etapa do Circuito Brasileiro de Corridas de Aventura.
A competição, realizada no último fim de semana no município de Iporanga, sul do estado de São Paulo, contou com 32 equipes, totalizando a participação de 128 atletas. O desafio era encarar, em 24 horas, os 110 Km de percurso em diferentes ambientes serranos e várias modalidades esportivas: aquaride (bóia-cross), mountain bike, trekking, orientação, rapel e canoagem (canadense e em Ducks - caiaques infláveis). Para os experientes cariocas Pietro Carlo e Carmem da Silva, da equipe Tribo do Pés, a prova foi dura, mas muito bem bolada. A seção mais árdua para Pietro foi a dos Ducks - pudera! Cinco horas remando em caiaques infláveis, vencendo 43 Km...
As passagens entre as cavernas da Casa de Pedra e Água Suja foram os trechos mais esperados da prova. O catarinense Anderson Roos, da equipe Floripa Sul Brasilis descreve seu momento: ‘‘O rapel negativo de 98 metros - entrada da caverna Água Suja - foi cinematográfico! À medida que descia iluminava com a lanterna as imensas galerias,. Algumas estalactites chegavam a ter o tamanho do corpo...’’
Sem dúvida foi uma prova intensa que exigiu das equipes muita técnica, força e agilidade na plotagem (interpretação) dos mapas - entregues, em partes, durante as etapas da corrida. Sem equipes de apoio, comuns em outras provas, a etapa do PETAR procurou moldar-se nos conceitos da maior corrida de aventura brasileira: o EMA - Expedição Mata Atlântica, marcada para novembro próximo, com seis dias ininterruptos de competição, válida pelo circuito mundial de corridas de aventuras, o AR World Series. ‘‘Esta etapa foi uma grande surpresa e um ótimo treino. O número de equipes que completaram na categoria principal (Expedição), 15 equipes, demonstra que estamos crescendo tecnicamente. Acredito que as equipes brasileiras estão caminhando para participar das provas internacionais’’, palavras de Alexandre Freitas atleta e organizador do
EMA 2001.
Trilhas Pesadas
Em algum momento da prova, os jornalistas, meros mortais, precisavam tirar um tempo para descansar. Após acompanhar o trekking matutino de 6 Km, acompanhar o aquaride, bike e canoagem, decidimos parar um pouco à tarde e retomar o fôlego para a cobertura noturna, trecho que compreendia as cavernas. No fim de tarde, com a esperança de registrar as primeiras equipes, iniciamos o caminho à Casa de Pedra, a maior boca de caverna do país: 230 metros, simplesmente gigantesca!
Atravessamos um rio e começamos uma pesada subida, com muita lama, pedras escorregadias - uma ladeira que não acabava mais. ‘‘Muito puxada!’’, como definiu o trecho a atleta curitibana Mirela Paraná (26) da equipe Extremaventura. Priscila, nossa fotógrafa, achou uma pegada de um felino... A onça-pintada e a onça-parda são duas das 30 espécies ameaçadas de extinção que habitam a região.
Aproveitamos a tênue claridade até as últimas. Paramos no fim da subida, devoramos meia laranja, cada um e retomamos a trilha munidos com uma head lamp (lanterna de cabeça). A mata ficou fechada e o breu tomou conta dos arredores. Começamos a descer e escutar o barulho de um rio, a bela sensação de que o fim do martírio estava próximo foi tomado pela incrível dificuldade que a trilha tomara. Descida de acentuada inclinação, com várias pedras limosas e raízes por todas partes... Praticamente nos pendurávamos das árvores, com o intuito de não sair rolando ladeira abaixo.
Ao chegar ao rio Maximiliano, a uns 200 metros do nosso objetivo, encontramos outro colega e um guia esperando pela primeira equipe. Nem os fiscais do PC haviam chegado. A espera noturna durou mais duas horas, as quais aproveitamos para conhecer a enorme entrada da Casa de Pedra. No escuro da noite, o paredão se torna ainda mais imponente. Infelizmente não pudemos nos aproximar; os fiscais alertaram para o perigo de que, com a fina chuva, as enormes pedras que seguiam até a boca da caverna, estavam muito escorregadias.
Enjoados de tanto esperar, molhados e com frio, nos perguntávamos se o trecho havia sido invalidado pelos organizadores. Subitamente, luzinhas de head lamps rodavam frenéticas entre as árvores e galhos daquela ladeira escura: indicando a graça dos quatro integrantes da primeira equipe, a local Bairro da Serra, que chegava ao PC da Casa de Pedra. O relógio já marcava 21:50 h.
Percalços da Prova
Riscos de acidentes graves e até de morte existem em corridas de aventura realizadas em todo o planeta. Uma equipe, que não aparece tanto, mas imprescindível é a médica, que acompanha de forma itinerante os atletas por toda a prova. O Dr Clemar Corrêa, com experiência em vários eventos deste tipo, se preocupava: ‘‘A principal atenção é com a caverna, pois é um percurso longo e muito técnico, com topografia irregular, e pouca visibilidade. Esconde abismos e estalagmites (estruturas alongadas de pedra que surgem dos tetos subterrâneos) perigosos.’’
Felizmente não houve incidentes graves: apenas uma torção de pé de uma atleta e o fato curioso de um dos competidores, ao sair da Casa de Pedra, no breu da noite, escorregou e caiu alguns metros na água. O sortudo disse, ainda, escutar o assobio do vento enquanto caía... A equipe paranaense melhor colocada, a Extremaventura, que ficou em primeiro na categoria Aventura (intermediária, entre a elite Expedição e a mais fraca Alternativa), só não completou a prova porque Mirela, a única mulher do grupo, sofreu um princípio de hipotermia quando se preparavam para o trecho final, na trilha da Água Suja. ‘‘Foi uma pena, eu sabia que todos queriam fazer o rapel na caverna, mas não consegui prosseguir. Os meninos, com apurado espírito de equipe, abortaram e retornaram comigo à linha de chegada.’’
Os aventureiros das equipes paranaenses foram: Julio Camargo, Mirela Paraná, Eduardo Mazza (Formiga) e Ricardo Costa, correndo pela Extremaventura, e Bruno Sperandio, Everson Zem, Marcelo de Pellegrim e Peterson dos Santos, da Escoteiros da Pátria.
RESULTADOS
As equipes que não chegavam num determinado prazo aos PCs, eram obrigados a pular um trecho e seguir competindo em categorias inferiores. O objetivo era de que todos os grupos chegassem ao final da prova. As categorias se denominaram: Expedição, para as equipes que correram todo o percurso; Aventura, para aquelas que não conseguiram completar algum trecho; e a Alternativa, para as que tiveram que abortar percursos maiores da corrida. Ainda, houveram onze desistências.
Categoria Expedição:
1º lugar: Bairro da Serra (Iporanga - SP)
2º lugar: Reebok Coolmax Canoar (São Paulo - SP)
3º lugar: Tribo dos Pés (São Paulo - Rio de Janeiro)
Categoria Aventura:
1º lugar: Extremaventura (Curitiba - PR)
2º lugar: Mutuca (São Paulo - SP)
3º lugar: Conatus! (São Paulo -SP)
Categoria Alternativa:
1º lugar: Ilhabela Adventure Team (São Paulo - SP)
2º lugar: Punta Cana (São Paulo - SP)
3º lugar: Escoteiros da Pátria (Curitiba - PR)

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