Paris - Amigo, leitor, nesses dias de trégua do futebol, ofereço a você um momento de puro deleite com trechos de uma entrevista com o brilhante cineasta americano Woody Allen, publicada pela revista francesa L’Équipe Magazine. O diretor de ‘‘Hollywood Ending’’ está em Cannes e acaba de receber ‘‘a palma das palmas’’. É a primeira vez que ele vem pessoalmente ao festival e está fazendo um grande sucesso na imprensa mundial e principalmente na imprensa francesa, que se sente honrada com a presença dele.
Antes de começar a transcrição da entrevista, vai aqui uma palavra distante, porém, eloquente sobre a conquista da Copa do Brasil, pelo Corinthians. Uma semana histórica na vida do timão. Parabéns! Agora, com vocês, Woody Allen, que se confessa um velho amante de esporte, assim como os escritores patrícios Ernest Hemingway e John Steinbeck. Boa leitura!
Você sempre se interessou pelos anos pré-Segunda Guerra. No caso do esporte, essa época também o fascina?
Woody Allen (W) - Nos Estados Unidos, o público considera os heróis de então (Jesse Owens, o nadador Johnny Weismuller, o pugilista Joe Louis etc) incomparáveis. Isso é verdade em tese. Joe Louis era perfeito, uma espécie de Deus, o maior peso-pesado da história. Mas é claro que jamais poderia ganhar de Muhammad Ali. Na verdade, os atletas do passado eram bem menos extraordinários que pensamos. Já os super-atletas de hoje são claramente mais impressionantes, portanto não existe comparação possível.
Esporte não seria então sinônimo de nostalgia?
W - Não. Esporte é, acima de tudo, sinônimo de progresso.
Num de seus filmes, você diz que prefere assistir a uma partida de hóquei no gelo a ver uma ópera de Wagner. Você realmente pensa assim?
W - Eu me sinto mais à vontade na frente de um ringue de boxe ou na beira de uma quadra de basquete, que numa sala de concerto. É bem mais fácil se identificar com o peso-pesado Evander Holyfield ou com o jogador de basquete Allan Iverson do que com Wagner Richards. Isto não quer dizer que não goste de ouvir um disco do mestre alemão de vez em quando.
Dizem que quando adolescente você era bom em esporte...
W - Era rápido e tinha excelentes reflexos. Jogava beisebol todos os dias. Hoje, as pessoas me olham e pensam: ‘‘Esse cara devia ser muito ruim em esporte.’’ Enganam-se... Aos 14 anos, cheguei a pensar em ser profissional, mas na mesma época comecei a escrever histórias de humor e achei que seria mais fácil ganhar a vida assim. Fazer carreira no esporte é muito difícil. Por mais que você se ache o melhor, há sempre alguém melhor que você.
Aos 16 anos, você mudou radicalmente. Parou de jogar e passou a ler como um louco. Por que essa mudança?
W - Durante muito tempo, eu li histórias em quadrinhos e a seção de esportes dos jornais. Aí conheci moças inteligentes e cultas que não paravam de falar em literatura, então comecei a ler pra poder estar à altura.
Na França, ser intelectual não combina com gostar de esporte. Você parece não se incomodar com essa incompatibilidade...
W - Eu gosto do que é bonito, estimulante, surpreendente. O esporte, à sua maneira, lida com esses registros. Ernest Hemingway adorava esporte, John Steinbeck também. Estou surpreso em saber que os franceses não se permitem esse prazer. O esporte é algo formidável, com uma relevância tão grande quanto a música e a literatura. O esporte oferece um campo de valores infinito, ele resume a vida, é a vida. Uma vida desprovida de sentido.
Recentemente, alguns cineastas (Oliver Stone, Spike Lee etc.) apostaram na história de atletas em seus filmes. É justo comparar os filmes de esporte de hoje com os westerns dos anos 50?
W - Não acredito. Se existe mais filme de esporte hoje do que há 20, 30 anos é porque os roteiristas resolveram falar das falcatruas no mundo esportivo, até então tabu. Mas isso não quer dizer que façam filmes de verdade sobre esporte... Filmes preocupados com o esporte enquanto gesto e competição não existem. Simplesmente porque o esporte é o contrário da ficção.
Você poderia fazer um filme sobre a vida de um atleta, onde sentíssemos o calor dos fãs, o cheiro dos vestiários?
W - Se fizesse um filme assim, certamente eu falaria menos do ato que da vida do herói, de sua relação com os empresários, de sua angústia de envelhecer etc. O gesto esportivo em si não teria lugar na história, simplesmente por ser impossível reconstituí-lo. A gente não pode fingir fazer uma cesta de três pontos ou um home-run...
A última prova de seu interesse pelo esporte é a escolha de seu nome artístico...
W - É verdade. Quando estava procurando um pseudônimo (o nome verdadeiro é Allan Stewart Konigsberg), achei que Allen era sonoro e que Mel Allen era mais ainda. Mas, no início dos anos 50, era impossível se chamar Mel Allen, pela simples razão que Mel Allen era o grande comentarista do New York Yankees! Então, acabei escolhendo Woody Allen.

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