Um esmalte para esconder a graxa. Um detalhe rosa aqui, outro ali, outro acolá e o mundo masculinizado do automobilismo vai ganhando detalhes femininos de uma intrusa que volta à ativa disposta a quebrar barreiras e seguir os passos de Bia Figueiredo e Fernanda Parra, as mulheres que roubaram a cena na Stock Car Light. Depois de dois anos sem correr, a sul-matogrossense Fábia Siqueira, 23 anos, volta às pistas, agora no kart.
Com passagens pela Fórmula Fusca e Pick-up Racing, de dentro do cockpit de seu kart ela faz planos e sonha em brilhar entre os homens no automobilismo nacional. ''Em dois anos quero estar na Stock Car Light, mas o sonho é a Stock Car V8. É uma categoria muito veloz, para mim é a Fórmula 1 brasileira'', apontou.
Fábia mostra confiança nesse recomeço. ''Eu sei do meu potencial, mas preciso colocar ele em evidência para surgirem patrocínios. Esse ano eu voltei a correr e pretendo fazer um bom campeonato de kart aqui no Mato Grosso do Sul para conseguir um patrocínio bom e correr em uma categoria nacional'', disse a piloto.
E foi justamente a falta de patrocínio que tirou ela das pistas após a temporada 2005. A falta de investimento fez com que Fábia desanimasse e abandosse as pistas. Nem mesmo o título da Fórmula Fusca um ano antes conseguiu atrair patrocinadores. ''O automobilismo é caro e com recursos próprios é difícil correr'', lamentou.
Assim, o Fusca cor-de-rosa, que lhe rendeu o apelido de Penélope Charmosa - aquela loira alta com seu carro rosa que disputava as melhores colocações com mal-feitores no desenho animado ''Corrida Maluca'' -, foi aposentado.
Mas a falta de patrocínio não é o único adversário da piloto. O preconceito masculino no automobilismo é outra barreira a ser suplantada por Fábia. ''Tem homem que não aceita perder para mulher. Mas também, se eu acho feio perder para eles, imagina os homens perdendo para uma mulher'', comentou. ''Já aconteceu do piloto não subir no pódio porque ficou atrás de mim. Acabou a corrida e ele foi embora''.
Ela conta que sofre muito por ser mulher e tem que ter a atenção redobrada para não ver a corrida acabar mais cedo. ''Eles batem no meu carro, me tiram da pista. Aliás, tentam tirar, porque me seguro. Tenho que correr com a cabeça'', contou.
Modelo
A Penélope sul-matogrossense não é loira, muito menos alta - tem 1m63 -, mas nem por isso não chama a atenção dos homens quando está fora do cockpit. Bonita e vaidosa, Fábia é modelo nas horas vagas e sabe muito bem conviver com as cantadas recebidas nos padocks. Algo do tipo ''você é boa de curvas''.
''Eu levo sempre na brincadeira. Converso com todo mundo e me acho muito carismática. Então, levo na esportiva mesmo, afinal estou competindo num mundo machista'', comentou a piloto. ''Sábado era dia de treino oficial e à noite eu sempre ia fazer a unha. Não que eu seja extremamente vaidosa, mas eu gostava de estar de bem comigo mesmo. Enfim, corria bonitinha (risos)'', continuou, lembrando que faz o possível para ter uma imagem masculinizada.

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