Com a ponta dos pés na beira da viga lateral da ponte e uma corda esticada presa em sua cadeirinha, a menina Heladi, 21, repete apreensiva: ‘‘Ai meu Deus! Acho que vou morrer! Minhas pernas tremem... Não dá, não dá...’’ Com o abismo sob si, ela pensa demais... É verdade, a loucura que está prestes a realizar é insana: jogar-se num imenso balanço, de quinze metros de altura; equivalente a um prédio de quatro andares.
O chamado pêndulo fica sobre o rio Caí, a 30 Km de Canela, Rio Grande do Sul. O cenário natural ao redor colabora com a intensa experiência: a bela cachoeira, que deu o nome ao vizinho Parque da Cachoeira, corre frondosa frente à ponte, em meio a um exuberante vale verde. O que falta a Heladi é uma pequena dose de inconsequência, apenas um pulinho para trás. Demorou... Sai a nossa amiga, entra seu namorado, após meia hora de indecisão. E ele se atira logo, soltando um medonho grito... ‘‘Alucinante! Olha, se pensar duas vezes você não pula...’’ , enfatiza após sua corajosa investida.
O que se sente é uma enorme carga de adrenalina, que certamente vai demorar anos em sair do corpo. Quando chega a hora da decisão, a ansiedade te domina! Pernas bambas, respiração ofegante e pensamento determinado: Vai! A velocidade é alucinante. Cordas vocais vibram como nunca, a imagem do rio se aproxima e chega numa fração de segundos - o rasante é de um metro do nível da água... Em seguida, o nó na garganta: atingimos o ápice do outro lado, quase chegando à altura da ponte, o peso do corpo se anula, experimentamos breves segundos de astronauta... Começa a nova queda, surpreendida pelo pequeno tranco da corda, que nos encaixa na volta do pêndulo. A experiência se repete umas dez vezes, diminuindo gradualmente a amplitude do balanço, até chegar à posição vertical, praticamente parado, colado na água. Quinze metros acima, o instrutor André desce aos poucos a corda com o mosquetão (grampo especial) que irá içar-nos até a ponte novamente. É só plugar-se a ela e contar com a força dos braços do instrutor, que puxa o praticante através de um sistema de roldanas. É hora de relaxar, retomar o fôlego e contemplar extasiado a natureza.
Coragem amarelada
Não é todo mundo que se anima. André estima que 40 % dos postulantes amarelam, desistem na hora h: ‘‘É o momento; uma decisão difícil. A vontade de experimentar é grande, mas o bom senso acaba nos traindo...’’, explica o instrutor. Imagine, até os experientes alpinistas hesitam antes de se atirar: Eles demoram porque este ato, de jogar-se no abismo, sempre foi contra a sua atividade. Na escalada, a meta sempre é subir com extremo cuidado, evitando ao máximo a queda. Outro amigo, o instrutor Jeremy, revela que em seus quatro anos de pêndulo, há vezes que não dá, a mente bloqueia e deixa o salto para outro dia...
Jeremy nos conta a origem do sugestivo nome da ponte, Passo do Inferno: Caminhões abarrotados de madeira, nos anos 40, chegavam ao rio - naquela época sem ponte - e tinham a imprevisível tarefa de atravessá-lo. ‘‘O rio Caí é raso e relativamente largo neste ponto (60 metros). As chamadas cabeças d‘água acontecem sempre que uma enxurrada abençoa a cabeceira do rio. Uma onda gigante surge sem prévio aviso e eleva o nível do rio para dois metros em questão de minutos. A expectativa e terror dos antigos camioneiros acabou batizando o lugar de Passo do Inferno. A ponte foi erguida após a Segunda Guerra pelos militares. Sua estrutura avermelhada de metal dá um toque exótico ao local. Foi em 97, que o pessoal da Atitude, agência de aventuras local, viu na ponte as imagens que as revistas do segmento divulgam sobre pêndulos na Europa.
A segurança é total. Falta coragem mesmo. Os equipamentos que evitam o encontro do praticante com as pedras do rio são todos ‘‘backupeados’’, recebem sempre mais um elemento extra: são duas cordas, dois mosquetões na ancoragem, dois nós... Seguindo à risca as recomendações das normas montanhistas.

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