Pelé dispara contra dirigentes e jogadores
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terça-feira, 14 de setembro de 2004
Luís Fernando Tinoco<br> Agência Estado 
São Paulo - O Rei Pelé resolveu atacar alguns dos mais polêmicos dirigentes do País. Irritado com as recentes críticas à lei que leva seu nome, o Atleta do Século disparou ontem contra os cartolas dos grandes clubes do futebol brasileiro, acusando-os de corrupção e incompetência. Nem os jogadores escaparam: foram descritos como burros e desunidos. ''O futebol brasileiro está nessa falência pela falta de profissionalismo e de honestidade dos dirigentes'', disse Pelé, em entrevista em São Paulo. ''Os caras roubam os clubes, somem com o dinheiro e vêm por a culpa na Lei''.
Questionado, o ex-jogador, sem titubear, afirmou que a corrupção afeta a maioria dos cartolas nacionais e citou os do Flamengo, do Corinthians e do Vasco como exemplos de desonestidade. ''Cadê o dinheiro que entrou no Flamengo, os R$ 80 milhões da ISL? E o do Corinthians, da Hicks Muse? No Vasco, com o Nations Bank, foram outros R$ 70 milhões. Era para pagar as dívidas, construir estádio... E aonde foi o dinheiro?''
O Rei falou com rispidez. Atacou os dois clubes de maior torcida do Rio e o mais popular de São Paulo como casos de times que receberam fortunas dos patrocinadores internacionais nos últimos anos e hoje estão cheios de dívida e alegam falta de dinheiro para manter times de qualidade.
Há um mês, dirigentes do Corinthians e do Flamengo culparam a Lei Pelé pelo fato de os principais jogadores brasileiros estarem em clubes do exterior. ''Essa lei está destruindo o futebol brasileiro'', afirmou o vice-presidente do Corinthians, Antonio Roque Citadini, após a saída do lateral Rogério para jogar no Sporting de Portugal. Júnior, diretor do Flamengo, pediu uma reavaliação do texto e disse que a lei contribuiu decisivamente para o êxodo dos craques nacionais.
Para Pelé, a saída de grandes jogadores para a Europa existe desde a época em que ainda jogava, mas a penúria do futebol nacional é recente. ''Os times já estavam falidos antes da Lei Pelé. Agora, porque têm de vender jogador, a culpa é da Lei Pelé'', afirmou, indignado, acrescentando que, nos seus cálculos, pelo menos R$ 500 milhões entraram nos grandes clubes desde que as empresas estrangeiras começaram a investir no futebol nacional, mas o dinheiro foi parar no bolso dos cartolas e nada foi aproveitado para melhorar a condição dos clubes.
Como exemplo de trabalho sério, Pelé citou apenas o Cruzeiro, dizendo que o clube mineiro usou os recursos que teve para fazer um novo centro de treinamento. ''A Toca da Raposa 2 é uma das instalações mais modernas do mundo'', afirmou.
Pelé culpou principalmente os dirigentes dos clubes, mas não isentou os próprios jogadores pela situação do futebol nacional. Segundo ele, os atletas estão errados ao não se unir como classe trabalhadora e ao não aproveitar a liberdade permitida pela extinção do passe. ''É um problema de burrice do jogador. Eles tiveram a liberdade, mas tiraram o clube e passaram a ficar nas mãos de empresários'', afirmou. ''A classe de jogadores é muito desunida.''


