De tanto brincarem com o tempo, um grupo de ''peladeiros'' de final de semana acabou forjando uma tradição no Londrina Country Club. Toda a madrugada de domingo é a mesma coisa: respeitáveis homens de negócios, profissionais bem sucedidos e respeitados, acordam antes do sol nascer para se divertirem em acirradas partidas de futvôlei e futebol suíço.
Na insistência em driblar o insaciável relógio da vida constituíram uma irmandade batizada de ''Galo da Madrugada'', que neste ano completa 30 anos. Como moleques em busca da perpetuação da alegria incansável da juventude, eles se transformam simplesmente em amigos. E, independentemente dos resultados das partidas, tudo acaba em festa.
Ninguém conhece ao certo quem deu o nome ao grupo de amigos. O que se sabe com certeza é que a inspiração veio do tradicional bloco carnavalesco do Recife, um dos maiores do mundo.
Mas por aqui, quem conta como tudo começou é um dos fundadores do ''Galo'' londrinense: Ermenegildo Teixeira, 68 anos, mais conhecido como ''Texa''. Ele diz que todos costumavam participar dos jogos realizados nas tardes de sábado no clube. ''Só que começamos a ficar velhos para jogar no meio da molecada. Ficávamos até meio acanhados de jogar com eles'', revela. A saída foi transferir as disputas para os domingos de manhã. ''Passamos para as oito da manhã, mas quando os meninos descobriram tivemos que passar para as 7h30 e assim fomos adiantando até começar a jogar às 4h30'', como acontece hoje em dia.
Mas como não há iluminação no campo de grama, eles se aquecem com um futvôlei na quadra coberta do clube até que os primeiros raios de sol permitam que a brincadeira aconteça nos gramados. E a coisa é tão organizada que só conseguem lugar nas equipes os atletas que chegam no horário. Como são quase 40 integrantes, quem se atrasa tem que esperar no banco pela oportunidade de mostrar seu talento.
Piadas Como bons e velhos amigos, as piadas brotam na mesma velocidade que os inúmeros gols. Entre uma partida e outra, ninguém é perdoado. O bancário Manoel Lage, 46, o ''Mané'', destila um veneno atrás do outro, principalmente contra os goleiros: ''Tem o Todinho, aquele que bateu tomou; tem o mão de quiabo (por motivos óbvios), tem o Nabor, em quem só não faz gol quem não chuta; tem o Gaúcho, que quando não joga no gol sua mulher briga com ele quando chega em casa porque ele não levou o frango''.
Mané tem fama de ''pé frio'' e foi o escolhido pelos demais para acordar os outros integrantes de madrugada. ''Tem esposa que desliga o telefone na minha cara'', brinca.
Nabor (o empresário Nabor Paulo Santos, 65) se defende dos ataques do amigo. ''Com essa idade já não se pega mais nada. O que não pode é parar'', rebate o goleiro que tem 29 anos de ''Galo''. Completando o amigo, o médico Benedito Grizzo, 65, ou simplesmente Grizzo, lembra que a irmandande faz bem à saúde. ''Isso aqui é qualidade de vida'', elogia.
Quem confirma a tese é o também amigo e ex-jogador profissional Arnaldo César Macedo, 35, hoje professor de Educação Física. ''Quando comecei a vir, há uns dois anos, achava meio estranho porque tinha que acordar de madrugada. Mas agora não'', revela um dos franguinhos do ''Galo''.
Churrascadas E como em todo clube que se preze não poderiam faltar as festas após as partidas. O engenheiro civil Rogério Dutra, 39, e o comerciante Fuad Janene, 33, são quase sempre os comandantes das churrascadas. ''Já cheguei aqui as três da manhã para preparar costela'', conta Dutra. Janene confessa que às vezes é difícil convencer a esposa. ''Saí hoje e ela perguntou se até hoje (Dia das Mães) ia ter futebol''.
E o ''Galo'' é tão tradicional que até o prefeito Nedson Micheleti (PT) comparece para dar seus dribles. ''Ele já marcou até gol'', denuncia o vereador Jamil Janene, que integra a irmandade desde a juventude.

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