Pela 15º vez, Dona Zilda corre na São Silvestre
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
Zilda Bezerra de Oliveira, 57 anos, natural de Flores, sertão pernambucano, é uma mulher apaixonada por corridas de rua. Aprendeu a correr quando era pequena. Com a seca, que castiga invariavelmente o agreste nordestino, tinha que percorrer quilômetros para buscar água no rio mais próximo de casa. Em vez de andar, preferia correr. ''Era também por diversão, eu tinha meus 9 ou 10 anos, ia buscar água e aproveitava também para brincar na beira do rio. Peguei gosto pela corrida nesta época'', contou a dona de casa, mãe de três filhos, moradora do Jardim Ipanema, zona sul de Londrina.
Sua paixão maior, no entanto, é pela Corrida de São Silvestre, prova que ela chama carinhosamente de ''a festa do corredor''. Integrante do pelotão dos veteranos, ela não participa em busca de prêmios, mídia ou reconhecimento dos primeiros lugares. ''A São Silvestre é uma prova diferente, dá frio na barriga quando a gente está quase pronta pra largar. Essa será minha 15 corrida, e sinto a mesma emoção que sentia quando corri pela primeira vez'', disse Dona Zilda, que se considera uma especialista em provas de longa distância. ''Sou uma maratonista''.
Neste ano, a São Silvestre será realizada pela 80 vez nas ruas da capital paulista. Quartorze delas, desde 1989, contaram com a presença de Dona Zilda, que mostra com orgulho seu álbum de fotos tiradas ao lado de estrelas do atletismo mundial, como multicampeão da SS, o queniano Paul Tergat, e o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze nas Olimpíadas de Atenas. ''É uma festa emocionante. Dá vontade de chorar e agradecer a Deus pela oportunidade de participar de algo tão grandioso'', confessou.
Dona Zilda teve uma vida dura antes de se mudar para Londrina, em 1965. Trabalhou até os 18 anos na colheita do algodão no município de Assaí, antes de conseguir um emprego como camareira do Hotel Bourbon. Aos 23 anos, casou e começou a se dedicar com mais seriedade ao novo hobby. A primeira prova oficial foi no Zerão, há mais de 20 anos, segundo a memória dela. ''E olha que o Zerão não é nada disso que é hoje. Só tinha mato'', recorda.
Ao longo desses anos, foram centenas de provas e alguns resultados significativos. Em 2002, foi campeã da Maratona Internacional Ecológica de Curitiba, cujo troféu exibe com orgulho na cristaleira de casa. Nos anos seguintes, dois segundos lugares na mesma prova. Ela também participou de provas importantes do calendário brasileiro, entre elas a Maratona Internacional de Blumenau (1995, 96, 97, 98 e 99), Prova Pedestre XV de Fevereiro, em Cornélio Procópio, Prova Pedestre 28 de Janeiro, em Apucarana, e Circuito Nacional de Corridas dso Carteiros, etapa de Curitiba.
Com uma saúde de ferro são 20 quilômetros por dia em duas horas de caminhada e corrida Dona Zilda afirma que as provas de longa distância não são privilégio de superatletas. ''Tem gente que acha que é gordo ou velho para competir, mas desde que bem orientado, todo mundo pode praticar o esporte'', garantiu.


