Pedimos Garrincha no lugar do Joel
Agência Estado
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SuperstiçãoNilton Santos: No Botafogo, o presidente Carlito Rocha sempre dizia para a gente entrar com o pé direitoAs lembranças da Copa do Mundo da Suécia, em 1958, são as melhores. Talvez porque foi a primeira que conquistamos, abrindo caminho para as outras três, em 1962, 1970 e 1994.
Dentro ou fora do campo a amizade entre o grupo era grande. Nas horas de folga, o que chamava a atenção era o interesse que o Pelé, principalmente, despertou nas suecas. Ele ainda nem tinha jogado para mostrar todo o seu futebol que o consagraria, depois, como o melhor do mundo.
O Oreco também fez lá o seu sucesso. Mas o Pelé tinha apenas 17 anos, era o mais jovem do grupo, cara de garoto sapeca, ágil, brincalhão. O Zózimo também despertou algum interesse nas suecas. Tanto, que esteve perto de trazer uma para o Brasil. Foi aí que eu disse para ele: Olha que lá no Brasil tem muito neguinho e ela (a sueca) vai acabar pulando o muro...
Pode ser incrível, mas houve um tempo em que Pelé não era o Rei, mas apenas uma jovem promessa. Só veio a descobrir o craque nos primeiros treinos. Quando ele começou a descer com a bola e dar totozinho nos caras, aí é que a gente percebeu que se tratava de um fenômeno.
Ainda hoje fico pensando no futebol daquela época e no de hoje. Mudou muito, tanto no aspecto individual como no coletivo, tático. Mas o importante, mesmo, é que o jogador saiba jogar.
Os entendidos em futebol falam que o Garrincha não faria hoje o que fazia naquela época. Duvido. O Mané formava uma fila e ia driblando um a um. Driblava os quatro da zaga e ia lá na trave e provocava os adversários com novos dribles antes de chutar. Ele jogava muito. Nasceu pra isso. Então, o Mané Garrincha ia fazer o mesmo hoje, só que teria que se preparar melhor fisicamente. Naquela época tinha que ser só jogador de futebol e, hoje, tem que ser atleta que joga futebol. Hoje, o jogador treina de manhã, de tarde, de noite, faz academia, musculação, não sei o que. No meu tempo, eu ia para praia pela manhã, voltava ao meio-dia, almoçava, dormia um pouco e depois é que eu ia treinar. E ainda me pagavam para jogar.
Quem começou com esse negócio de preparação física foram os húngaros, em 1954. E deu resultado, porque eles faziam 2 x 0 logo no início do jogo. Depois, tirar essa diferença, não é fácil. Aquele time, que foi vice-campeão em 1954, tinha que ter sido campeão.
Agora, sobre a escalação do Pelé e do Garrincha, a partir do terceiro jogo, na Copa do Mundo da Suécia: não é verdade o que escreveram que eu, o Bellini e o Didi, que éramos considerados os mais experientes, tivéssemos influenciado a escalação do Garrincha e do Pelé.
A verdade é que a gente só pediu para o Garrincha entrar no lugar de Joel. Agora, o Pelé, entrou no lugar de Dida por decisão da comissão técnica. Mas os dois eram uma loucura nos treinos, arrasavam a cada coletivo. Os membros da comissão se reuniam, com a porta fechada, e de lá saía o time, levando em conta o exame médico e os treinos da semana. Não sei se prevalecia mais a opinião do Carlos Nascimento (diretor-administrativo da delegação), que era um cara mais sereno. Acho que eles trocavam as opiniões e votavam. Eles escalavam o time e depois penduravam a escalação na parede do hotel. O Feola (Vicente Feola, treinador) já devia ter visto o Pelé (artilheiro e campeão paulista em 1958) jogar lá, tanto assim que o convocou. Ele estava mais dentro do time do que o Garrincha.
Na Copa do Mundo da Suécia, eu fazia duas coisas: ia para a frente do espelho e dizia: Pô, meu país tem milhões de jogadores, mas se eu fui escolhido é porque sou bom. E eu botava isso na minha cabeça.
Em clássico, o meu negócio era não errar o primeiro passe. A primeira bola que eu pegasse eu dava para um cara qualquer. Dali eu botava na cabeça que aquele era o meu dia e tinham que me aguentar. Era psicológico. Mesmo em um torneio despretensioso, o presidente do Botafogo, o Carlito Rocha, pedia pra gente entrar com o pé direito. Se não fizer bem, mal não faz. Mas nunca rezei pra ganhar o jogo. Rezava pra terminar inteiro. Ganhar jogo era comigo. Deus me deu essa saúde e eu era obrigado a jogar.





