A serração marcava presença com uma leve chuva. A ameaça de um denso nevoeiro pairava no ar e a noite começava a cair. No Portal da Estrada da Graciosa, a 38 quilômetros de Curitiba, envolvidos de muita vontade e espírito esportivo, 27 ciclistas, molhados, se aqueciam pedalando em círculos. As condições adversas não abalavam a disposição e bom humor do grupo: ‘‘O tempo está legal... vai ser divertido assistir os tombos da galera, espero que não seja eu’’, brincava a estudante curitibana Anele Felipe.
O passeio, promovido pela Bike Line Cicloturismo, contava com um carro de apoio, equipado com água, lanches e primeiros socorros, para atender bikers e bikes, e ainda duas vans que acompanharam a descida para o caso de possíveis desistências: ‘‘Foi o passeio que mais exigiu dos ciclistas, que desceram todo o percurso devagar com especial atenção para a ladeira escorregadia e à falta de luz, que só não foi total por causa da luminosidade da lua que se escondia atrás das nuvens’’, explica Roberto Coelho, organizador da aventura.
Eram 20 horas e o grupo se encontrava ali, com as bikes engatadas, no topo da serra. Prontos para encarar a graciosa estrada de majestoso cenário natural. Enquanto descíamos, apesar da pouca luz, a exuberante vegetação da floresta se fez notar. Em silêncio, íamos mergulhando na densa mata atlântica. O coaxar de sapos e o zumbido das cigarras nos acompanhariam por toda ladeira. Ladeira essa, de curvas sinuosas, escorregadia com a serração. Na escuridão da noite os altos cedros, imbaúbas e demais árvores engoliam, como uma sombra gigante, o espaço acima de nossas cabeças... As diversas flores presentes, entre bromélias, hortênsias, beijinhos perdiam para o forte perfume dos brancos jasmins.... Uma viagem de todos os sentidos. Como era noite de sábado cruzamos apenas alguns carros que subiam a serra, diferente do intenso tráfego de domingo
Confiado por ter a mesmíssima experiência em dezembro, de noite chuvosa, atrevi-me a soltar um pouco os freios, pedi permissão ao Roberto, nosso guia, e aventurei-me sozinho pelo primeiro trecho de asfalto, por uns sete quilômetros. Com mais velocidade as curvas aparecem mais rápido e as formas das árvores se mesclam com as zonas de clareira, misturando luzes e sombras numa frenética corrida, como num alucinado trem fantasma. Imagens aparecem e somem. O importante é fixar a vista no pavimento metros à frente e identificar para que lado inclinar-se. A curta viagem duraria até os escorregadios paralelepípedos, onde parei para retomar o fôlego e esperar o grupo. Demoraram oito minutos.
Felizmente, a medida que descíamos a serra, a chuva diminuía. Mas a estrada continuava úmida, agora com as ensaboadas pedras. Não teve para ninguém. O jeito foi abusar dos freios e equilibrar-se para desviar dos tombos dos ciclistas da frente. As quedas foram frequentes, sem consequências graves. Como as pedras são muito velhas, têm forma arredondada e lisa. Todos andavam devagar, e no caso de ir para o chão dava tempo de colocar as mãos, protegidas com as luvas; ou, quando muito, se a cabeça fosse primeiro, o capacete estava ali, para proteger. Os deslizes aconteceram nas entradas das curvas, em depressões e leves lombadas, que por ser noite, passavam desapercebidas. Durante nove quilômetros a apreensão com o pavimento foi total. A leve claridade vinda das nuvens que refletiam a luz da lua ajudou muito. Terminada a sessão dos paralelepípedos, chegou a hora da desforra: longas ladeiras de asfalto seco, com menos curvas. Sem luz artificial alguma, os bikers se deliciaram com a adrenalina da velocidade sob a penumbra – se aparecesse algum buraco na pista...
Pedalada ensolarada
Após uma noite de sono pesado, na rústica Pousada Água Doce, em Porto de Cima, os ciclistas se dividiram em dois grupos: o primeiro sairia às sete e meia da matina para uma pedalada de 50 quilômetros até o destino final: Refúgio Pousada das Montanhas, na bela região do caminho de Guaraqueçaba. O outro grupo, com uma moleza extra, acordou às 9 horas e se juntou ao primeiro, transportado pelas vans, nos últimos 20 quilômetros.
Acordar cedo e pedalar faz parte do ritual de fim-de-semana de vários ciclistas que participavam do passeio. É uma hora medicinal no pé da serra. A leve luz amarela trazia os primeiros sons do dia: pássaros cantando, galos dando sinais de sua graça, o gosotso barulho das corredeiras dos rios e os primeiros ruídos de crianças e famílias do campo que acordavam num dia que despontava azul e quente.
Com temperatura amena, partimos com o primeiro grupo na hora marcada. A estrada estava verde e florida, muito bonita. Era plana, pouco movimentada, com alguns morros no caminho: ‘‘Uma subida. Duas. Uma pequena pausa e descida. Braços abertos, novamente a bicicleta solta... Puro prazer’’, descreve Roberto Coelho, acompanhando de perto o primeiro pelotão.
O trecho final para muitos foi desgastante. Tínhamos que percorrer os 20 quilômetros de asfalto do caminho a Guaraqueçaba, quando virasse terra era sinal do fim da aventura. À esquerda estaria servido o almejado peixe no restaurante do refúgio. Mas o percurso realmente foi sentido. O sol estava à pino e os graus Celsius pareciam se multiplicar com o calor do asfalto. Foi uma reta sem fim. Um dos ciclistas exagerou no ritmo e quase desmaiou, teve que ser socorrido pelo carro de apoio. Alguns litros de água foram suficientes para recompô-lo e seguir viagem. Paradas foram frequentes e um merecido mergulho no Rio Nunes foi renovador.
Os ciclistas foram chegando e, estupefatos, assistiram ao Seu Manoel almoçar antes que todos, com certa pressa e voltar para estrada, rumo à sua casa de praia em Matinhos – a mais de 100 quilômetros dali...
Seu Manoel Nunes, sem dúvida o personagem da pedalada, comemorava seus 63 anos fazendo o que mais gosta: ‘‘pedalando pelas trilhas da natureza’’, como ele mesmo define. Aquele senhor franzino liderava os 26 ciclistas impondo um ritmo forte, que muitos não puderam acompanhar. Incrível! Sem dúvida um exemplo difícil de ser seguido...

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