Pausa forçada
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sábado, 09 de maio de 2015
Lucio Flávio Cruz<br> Reportagem Local 
A pouco mais de um ano de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o Brasil está longe de colocar em prática uma política estruturada de universalização esportiva e descoberta de futuros campeões. Diante deste quadro, os atletas enfrentam falta de recursos, poucas opções de centros de treinamentos de alto nível e muitos acabam desistindo no meio do caminho.
A trajetória da londrinense Lívia Avancini, de 23 anos, reflete fielmente este quadro e, infelizmente, não é uma situação isolada, mas sim uma constante no esporte brasileiro. Quinta colocada no ranking nacional do arremesso de peso, Lívia deixou de competir em alto nível no fim do ano passado, quando a equipe de atletismo de Londrina dispensou parte do elenco, em virtude da redução de investimentos.
A estudante do 3º ano do curso de Educação Física, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), foi descoberta aos 12 anos em um festival municipal para a identificação de novos talentos para o atletismo. "Sempre pratiquei esporte na escola e tinha um biotipo propício ao atletismo. No início disputava provas de peso, disco e pelota", relata. A coisa ficou mais séria aos 15, quando Lívia decidiu se dedicar e se aperfeiçoar no arremesso de peso.
Em 2009, se mudou para São Paulo e ficou um ano no Centro de Excelência do Ibirapuera, onde competindo pela equipe de Sertãozinho-SP, conquistou o quinto lugar no Mundial Menores, seu resultado mais expressivo. No ano seguinte, ainda impossibilitada de permanecer em Londrina, pela falta de estrutura para treinar, optou pelo Centro de Excelência da Confederação Brasileira de Atletismo (Cbat), em Uberlândia-MG. Lá, foi vice-campeã brasileira.
Em 2011, o reencontro com sua primeira treinadora, Silvana Vieira, a fez voltar a Londrina. A cidade, neste momento, já tinha um trabalho estruturado e se consolidava como uma das referências na revelação de novos atletas no país. "Isso colaborou para que eu fosse campeã juvenil sul-americana e brasileira, além de um quarto lugar no Troféu Brasil adulto", relembra a atleta, que coleciona diversas medalhas em competições estaduais.
Nem só de vitórias e títulos é feita a carreira de um atleta. Em 2012, uma lesão na coluna deixou Lívia um ano longe das pistas. Após a recuperação, a atleta participou de três GPs do circuito brasileiro sub-23 da Cbat e na última etapa deixou escapar a classificação para o sul-americano. "Eu estava liderando a prova e queimei o último arremesso. Fiquei sem a vaga e isso me abalou um pouco", garante. "Em seguida veio a diminuição da equipe e nem sei o motivo por qual fui liberada". Durante o período em Londrina, Lívia recebia ajuda governamental, através da Bolsa Atleta.
Sem um horizonte seguro surgiu a dúvida: deixar Londrina mais uma vez para continuar competindo ou terminar a faculdade? Hoje, a escolha já não é uma certeza. "Era difícil conciliar treino e faculdade. Recebi algumas sondagens de outros lugares e acho que deveria ter ido. Até porque hoje a universidade está em greve e não estou fazendo nenhuma das duas coisas", lamenta a estudante, que é estagiária em uma academia.
Lívia ainda não abandonou totalmente a ideia de voltar a competir em alto nível e para isso retornou aos treinos de musculação e crossfit, para reconquistar a forma física e melhorar o desempenho. "Pena que por Londrina vai ser difícil continuar. No arremesso de peso, uma atleta chega ao auge aos 28, 29 anos. Tenho tempo para voltar e atingir o ápice".
Sobre a Olimpíada no Brasil, Lívia tem dúvidas se será benéfica e deixará realmente um legado para o esporte nacional e para a sociedade. "Vai valer a pena ou será mais um evento que ficará esquecido depois? A minha situação é a mesma de muitos atletas com potencial olímpico e que estão escondidos e sem estrutura adequada para treinar em alto nível", lamentou.


