Curitiba - Estabilidade no emprego é uma idéia praticamente alienígena para os técnicos de futebol no Brasil. Quando os times começam a tropeçar no campeonato, a primeira medida das diretorias costuma ser entregar o bilhete azul para o treinador. Nesse quadro, um técnico vem se destacando: Paulo Afonso Bonamigo, do Coritiba, é o treinador da Série A do Brasileirão que há mais tempo comanda a mesma equipe. O gaúcho de 42 anos está há um ano e dois meses à frente do Alviverde, e pela campanha que o clube vem fazendo este ano deve permanecer no cargo pelo menos até o final do Brasileiro.
Não é só no Coritiba que Bonamigo conseguiu o respaldo da diretoria para dar continuidade a seu trabalho. No seu currículo o técnico se destaca por um fato raro no futebol brasileiro: desde que iniciou sua carreira fora do campo dirigindo o Madureira, em 1997, o técnico nunca foi demitido. A gradual ascensão de um time da Segundona do Campeonato Carioca para um dos primeiros colocados da Primeira Divisão foi marcada pela decisão de Bonamigo de aceitar propostas de outros clubes.
A possibilidade de ser dispensado, entretanto, não assusta o treinador. ''Graças a Deus isso não aconteceu até agora. Mas entendo que faz parte do contexto do futebol brasileiro, e se acontecer, todo treinador tem que estar preparado'', analisa.
Entretanto, Bonamigo sabe que não pode dar sopa para o azar. Quando o Grêmio sondava treinadores para substituir Tite, Bonamigo ressaltou que pretendia ficar no Coritiba até o final do ano. A prudência mostrou ter sido acertada: na semana passada, o diretor de futebol da equipe gaúcha foi forçado a pedir demissão e a situação do substituto de Tite, Dario Pereyra, não está nada confortável após uma goleada em casa contra o rival Juventude.
A perspectiva de dirigir um dos times de maior apelo popular do Brasil, porém, não é descartada por Bonamigo. Em uma entrevista exclusiva concedida à Folha, o técnico destaca as dificuldades que encontrou no início da carreira, fala de seu estilo como treinador e comenta a boa fase que o Coritiba atravessa no Brasileiro deste ano.
Folha - Essa é a melhor fase da sua carreira como técnico?
Bonamigo - É difícil falar em fases. Como em toda profissão, o técnico tem seus altos e baixos. Mas o que acaba importando mesmo são as conquistas. Nesse ponto, sem dúvida a conquista do Estadual de maneira invicta foi o ponto mais alto da minha carreira, até pela necessidade que a torcida tinha de ver esse título. Mas posso destacar também a grande alegria que foi ter levado o Remo à fase final da Copa Havelange (em 2000), que sem dúvida deu um grande salto de qualidade à minha carreira.
Folha - Você dirigiu times pequenos e sem estrutura, como o Madureira, o Sampaio Correia e o Mogi Mirim. Qual a diferença em atuar em times com mais recursos como o Paraná Clube e o Coritiba?
Bonamigo - Nossa, a dificuldade em times sem infra-estrutura é enorme. Além de técnico, eu já tive que ser gerente do clube, pagar conta de hotel para evitar o despejo... No Norte, principalmente, os treinadores são forçados a treinar sempre no mesmo campo, todo esburacado. Mas acho que são essas dificuldades que vão fazer de você um técnico melhor. Como aprendizado, acho excelente eu não ter caído de pára-quedas em um time grande, e ter sido obrigado a trabalhar em condições adversas.
Folha - Dentre essas dificuldades, qual você destaca como a que mais desafia o treinador?
Bonamigo - Em toda a minha carreira, os clubes que eu dirigi não tinham equipes montadas. Eu era forçado a reunir um grupo e começar a preparação tática pelo nível mais básico, para depois passar para exercícios mais avançados. Só no Paraná e no Coritiba o grupo já estava mais ou menos montado quando eu assumi e mesmo assim no Paraná (em 2001) o grupo estava sem auto-estima. Felizmente conseguimos reverter o quadro e conseguimos chegar ao vice-campeonato, empatando as três finais contra o Atlético. Não fomos campeões por detalhe.
Folha - Nesse aspecto, como está o Coritiba?
Bonamigo - A equipe está com a moral em alta, e sem dúvida os resultados estão ajudando nisso. Mas o ponto forte é o entrosamento que o grupo tem, graças à diretoria que deu a oportunidade de realizarmos um trabalho de longo prazo, mantendo a mesma base do ano passado. Mas temos que buscar sempre a perfeição, e o trabalho tem sempre que ser puxado.
Folha - Muitos criticaram a comissão técnica por ter esperado o fim do Paranaense para iniciar a busca de reforços para o Brasileiro, sendo que os outros clubes já começaram a contratação ainda no primeiro trimestre. Como você vê essas críticas agora?
Bonamigo - Vendo as contratações que fizemos, acho que acertamos em cheio na nossa escolha. Caso tivéssemos contratados no meio do Estadual, isso poderia dar uma desestabilizada no grupo, e talvez não chegássemos ao nosso objetivo que era o título. Esperando e analisando melhor, conseguimos ótimas contratações, não só na parte técnica, mas principalmente, e isso é preciso destacar, pela conduta e profissionalismo. Atletas como o (zagueiro) Odvan, o (meia) Jackson e o (atacante) Helinho ainda não finalizaram o processo de adaptação ao grupo, mas estão mostrando o empenho e a dedicação que eu exigo na minha equipe.
Folha - Você é considerado um técnico que costuma valorizar a prata de casa e os jogadores que ainda não atingiram destaque no cenário do futebol. Qual a qualidade que o jogador precisa ter pra se firmar no Coritiba?
Bonamigo - Sem dúvida o jogador tem que estar comprometido com o grupo, e não apenas com ele mesmo. Claro que todo grupo tem aquele jogador que dá mais trabalho na parte de disciplina, que gosta mais de festas, mas que consegue compensar em campo com boas apresentações. Mas o que não pode haver é a contaminação, isso se espalhar pelo grupo. Nesse ponto, me alegra ver que os jogadores do Coritiba já têm essa consciência. Agora não precisa mais ir à comissão técnica puxar a orelha: os próprios jogadores já chegam para quem sai da linha e dizem: 'Olha, ou você entra na nossa filosofia ou você não está de acordo com os objetivos do grupo.'
Folha - Como você vê o futuro da sua carreira? Existe a chance de deixar o Coritiba para um clube maior no final do Brasileiro?
Bonamigo - No momento, eu quero pensar apenas no meu trabalho aqui. É claro que a ambição de todo treinador é sempre pegar equipes maiores. Todo mundo quer dirigir uma seleção mundial, um Manchester United. Mas eu acho que tudo tem seu tempo e nesse aspecto eu sou bem tranquilo. A minha parte é estudar e trabalhar bastante, e acreditar na minha capacidade.

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