Quem pensa que a relação entre o Palmeiras e a Parmalat está chegando ao fim está bastante enganado. A parceria entre o clube paulista e a multinacional italiana, que, desde 1992, coleciona títulos e sucesso, vive, sim, uma fase de maturidade e adaptação à realidade. Paulo Angioni, diretor de Futebol da Parmalat, explicou à Agência Estado como está sendo o processo de mudança, além de revelar os problemas enfrentados no ano passado.
Angioni passou os últimos dias tentando desmentir informações de que a Parmalat deixaria o clube assim que o atual contrato terminasse, em dezembro. Os boatos começaram a surgir depois da saída de mais de 10 jogadores do elenco que disputou a última temporada.
"Não vamos deixar o Palmeiras, nem estamos fazendo economia ou reduzindo custos", explica Angioni. "O torcedor estava condicionado a contratações todo o ano, mas estamos passando por uma mudança de filosofia." Segundo ele, trata-se de uma "retração" pois os gastos, no ano passado, foram superiores aos esperados."
Com as altas despesas em 99 e a disposição da Parmalat de cumprir suas obrigações em dia, parte do orçamento deste ano acabou consumida antecipadamente. Angioni não divulga números, mas falou-se em gastos de 30% do orçamento de 2000.
Craques e dólar - Em 99, o Palmeiras, com o sonho de ganhar a Taça Libertadores da América pela primeira vez - e ganhou -, e com a possibilidade de aumentar as receitas em função do grande número de jogos na temporada, teve de montar um elenco maior e forte. "Optamos por ter um grupo grande, com vários jogadores caros", conta Angioni.
O primeiro e principal obstáculo veio no início desse ano, com o aumento de cerca de 100% do dólar em relação ao real. "Tínhamos contratos de cinco atletas indexados pela moeda norte-americana e começamos, desde então, a viver uma situação irreal", lembra o dirigente.
Desgastes internos - Segundo Angioni, outros problemas também apareceram ao longo do ano. "O envelhecimento do grupo (e não dos atletas) gerou dificuldade na convivência, nas relações inter-pessoais", afirma. "Alguns atletas ainda tiveram um desgaste de imagem e conduta perante a opinião pública e a torcida."
A questão do mercado também teve influência. Recentemente, também surgiu a oportunidade de bons negócios, caso da venda do passe de Júnior Baiano para o Vasco. Nos casos de Cléber e Zinho, segundo Angioni, foi uma alternativa dada pela Parmalat para que ambos buscassem contratos melhores fora do Palmeiras e ainda ajudassem no processo de retração dos gastos. "No início de 99, eu já havia passado ao Zinho uma proposta do Flamengo, mas, na ocasião, ele não ficou interessado."
Erro e lição - A transformação por que passa o Palmeiras hoje deveria ter acontecido antes, no fim do primeiro semestre no ano passado, logo após a conquista da Libertadores. A inevitável indignação da torcida com qualquer redução no elenco que enfrentaria o Manchester United, em Tóquio, em novembro, fez a Parmalat e Palmeiras assumirem uma folha de pagamento fora do alcance.
Não deu certo. O Palmeiras foi derrotado pelo Manchester
perdeu a final da Mercosul e acabou o Campeonato Brasileiro em 10.º lugar. "Na vida, conseguimos vitórias e temos de aprender lições nas adversidades", concluiu Angioni, admitindo que a estratégia foi errada. "O próprio Luis Felipe (Scolari, treinador) era contra qualquer mudança na ocasião, mas, hoje, também sente certo arrependimento por isso."
Angioni ainda lembra de outras experiências que fracassaram, como a do Cruzeiro que, em 1997, contratou reforços de última hora para superar o Borussia Dortmund, em Tóquio, mas acabou não conseguindo. Um erro que não foi repetido depois disso por outros clubes.
A lição aprendida em 99 será aplicada este ano, quando o Palmeiras volta a disputar a Libertadores. "Não haverá loucuras financeiras, ainda mais com o atual superaquecimento do mercado de jogadores", conta o dirigente da Parmalat. Angioni garante, no entanto, que o Palmeiras continuará sendo uma equipe forte e bastante competitiva.