Caminhar pelas ruas empedradas de Paraty é uma viagem no tempo. O padeiro, o pescador e o artesão se vangloriam em dizer que suas calçadas foram feitas por escravos. ‘‘Escravos calçaram no meio da mata caminhos, seguindo os originais dos índios, até o vale do Paraíba, e logo a Minas Gerais. Trilhas para escoar o ouro e toda a riqueza à metrópole. Paraty só existe em razão de um caminho ao interior’’, explica Diuner Mello, da Secretaria de Turismo de Paraty.
De repente, mais uma topada... As várias pedras de porte médio sobressaem do chão, formando calçada irregular. Remete ao duro, impagável trabalho do escravo... ‘‘Ruas de escravos!’’, orgulha-se outro comerciante. Como se as casas dos paratienses e todas as moradas, praças, igrejas e ruas brasileiras da época não fossem, então, erguidas pela mão do negro escravo...
Ao levantar a vista, enxergam-se casas brancas de janelas coloridas, a maioria dos séculos 18 e 19. Arquitetura portuguesa com traços do Brasil Colônia, Lúcio Costa, arquiteto e urbanista que projetou Brasília, preferiu chamá-la de estilo brasileiro. Casas todas iguais numa reta sem fim, que sempre termina em curva. As ruelas foram desenhadas para evitar que piratas europeus avistem o horizonte. Com faro apurado em busca do ouro, em fuga afobada, perdiam-se como ratos em navio que zarpa... Que o digam os inúmeros competidores e jornalistas do Ecomotion procurando cedo, na manhã de sábado, o ponto de largada corrida...
Chegando na quadra praia, minúsculos caranguejos se entocam em pequenos orifícios entre as pedras do calçamento. Uns metros adiante, por uma das tantas janelas enormes apreciadas, garrafas de todas as cores e nuanças chamam a atenção. Na placa: Porto da Cachaça... A história deu a Paraty o sinônimo de aguardente. ‘‘Nós tínhamos, no século 18, 110 engenhos, dos quais 100 eram de aguardente e dez de açúcar’’, conta Diuner que lembra até de um trecho de música local: ‘‘Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí... Ao invés de beber chá com torradas, bebeu Paraty.’’

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