Paratletas têm desafios muito além do esporte
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sexta-feira, 16 de março de 2018
Matheus Camargo<br>Estagiário 

Os paratletas brasileiros sofrem com a falta de incentivo e estrutura para continuarem se dedicando ao esporte. As bolsas-auxílios concedidas por órgãos públicos não chegam a todos os atletas e modalidades, o que gera dificuldades mesmo para competidores premiados e que disputam torneios importantes.
Um exemplo é a equipe de paracanoagem de Londrina. A equipe existe desde 2013 e conta com apoio da FEL (Fundação de Esportes) para realizar seus treinos, viajar para competições e adquirir equipamentos. "Somos a melhor equipe do Brasil", aponta Anderson Benatti, 31 anos, integrante da equipe. "Mas hoje tenho dificuldade financeira até para vir treinar, o transporte falta, acaba sendo muito necessária uma ajuda. Eu venho de ônibus, de Uber, às vezes de carona. Não moro muito longe, imagine quem mora."
Em 2017, três dos seis atletas da equipe de Londrina participaram dos Jogos ParaPan-Americanos de Canoagem, que foram disputados em Ibarra, no Equador. Giovane de Paula, 20, e Igor Tofalini, 35, foram campeões em suas categorias. Brenda de Almeida, 20, que treina há pouco mais de um ano, conquistou a medalha de prata. "Fui para o Pan e foi uma experiência incrível. Fui através do resultado no Campeonato Brasileiro e por causa da idade também, então fui convocada pela seleção para representar o Brasil, foi surreal", conta a atleta, que disputa a categoria KL1, para cadeirantes que têm poucos movimentos no tronco.
Almeida é um exemplo de jovem promessa do esporte brasileiro que não obtém ganhos financeiros com a prática da modalidade. A atleta deve começar a receber o Bolsa Atleta Nacional que paga R$ 925 de ajuda de custo nas próximas semanas. "Tenho dificuldade ainda, eu moro na zona norte e venho de ônibus até o treino todos os dias. Além de tudo, não tem infraestrutura. Já caí no ônibus, já peguei ônibus em que o elevador de cadeirante não funcionava, já fui xingada por outros passageiros porque o processo para eu entrar no veículo é demorado", relata.
Os paratletas no Brasil podem reivindicar o Bolsa Atleta, nos mesmos moldes dos atletas olímpicos, mas devem cumprir vários pré-requisitos, como a participação em diversos campeonatos nacionais ou internacionais, para só assim entrarem no processo seletivo para obter o benefício. O Bolsa Atleta é dividido em cinco categorias, com valores mensais diferentes: Categoria de Base (R$ 370), Atleta Estudantil (R$ 370), Atleta Nacional (R$ 925) que Brenda de Almeida deve começar a receber , Atleta Internacional (R$ 1,85 mil) e Atleta Olímpico/Paralímpico (R$ 3,1 mil). Em todas elas, os atletas devem estar vinculados a clubes para serem contemplados, exceto a estudantil.
O CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), entidade máxima da área no Brasil, enviou nota à FOLHA para afirmar que não tem ingerência sobre a carreira dos paratletas fora das seleções. "O papel do Comitê Paralímpico Brasileiro é de organizar a participação do País em competições continentais, mundiais e Jogos Paralímpicos, além de promover o desenvolvimento dos diversos esportes paralímpicos no Brasil, em articulação com as respectivas organizações nacionais", frisa a entidade. "As bolsas são as mesmas dos atletas olímpicos: Bolsa Atleta do Ministério do Esporte e dos governos estaduais e municipais, sem ligação direta com o Comitê Paralímpico Brasileiro."
Paralimpíadas
O CPB inaugurou recentemente o Projeto Centro de Referência, um centro de treinamentos paralímpico construído para abrigar seleções brasileiras de várias modalidades em São Paulo. O Brasil já tem tradição em Jogos Paralímpicos de Verão. Na última edição, disputada no Rio de Janeiro em 2016, a delegação brasileira conquistou 72 medalhas no total, sendo 14 ouros, 29 pratas e 29 bronzes, encerrando a participação no oitavo lugar, melhor colocação da história.
Neste final de semana, o Brasil encerra com resultados mais modestos a participação nos Jogos Paralímpicos de Inverno, disputados na Coreia do Sul. Com uma delegação formada por três atletas é apenas a segunda vez que participa dos Jogos , teve com Cristian Ribera, sexto lugar na modalidade de 15 km do esqui-cross country, e o snowboarder André Cintra, décimo, os melhores resultados até sexta-feira (16).
FEL cria projeto para parceria com empresas
A FEL, junto com o Ministério do Trabalho e Emprego, lançou no início de março o Projeto reAÇÃO Pcd, que visa auxiliar os paratletas da cidade por meio de uma parceria com empresas. Há uma lei de inclusão em Londrina que propõe uma cota de deficientes físicos no mercado de trabalho. Atualmente, 700 vagas estão abertas e há uma dificuldade para que sejam preenchidas. A ideia é que os paratletas ocupem esse espaço, mas que atuem como assessores ou palestrantes e as empresas, como patrocinadoras dos atletas. "A ideia é trazer a experiência que conseguimos verificar em outras cidades que já desenvolvem projetos assim", afirma Sandro dos Santos, assessor de eventos da FEL e mediador do projeto.
O objetivo é que, para que não tenham que se dedicar integralmente às empresas, os atletas possam ser remunerados e alavancar patrocínios para as modalidades, para que se dediquem com mais tranquilidade ao esporte. "Há uma contrapartida para a empresa, que terá o nome estampado no uniforme da equipe. Por exemplo, no golbol, a equipe vai ter o nome da empresa como patrocinadora nos uniformes. No projeto, o atleta poderá ser contratado até por mais de uma empresa, então o número pode aumentar cada vez mais. Hoje, os paratletas têm algumas dificuldades, alguns recebem a bolsa do governo federal para atletas com deficiência e alguns são aposentados por invalidez; os que não são passam alguma dificuldade, e a ideia é ajudar", completa o representante da FEL.
O comandante da equipe de golbol e atletismo para deficientes visuais de Londrina, Márcio Rafael, destaca o novo projeto como uma oportunidade. Ele descreve a ideia proposta pela FEL como uma via de mão dupla. "Ajuda completamente no rendimento do atleta, que acaba tendo mais foco e mais tranquilidade, e ajuda a empresa com a lei das cotas. Nós sabemos como não é fácil adaptar alguns tipos de deficiência ao mercado", afirma. "Isso vai ser muito importante em vários fatores para esses atletas. Primeiramente, na alimentação, que poderá ser cumprida de maneira mais regrada, além da condição financeira em si. Também haverá um ganho na aquisição dos materiais, o que também auxilia na prática esportiva."
Terceiro melhor do Brasil pega oito ônibus por dia
Outro integrante da paracanoagem que enfrenta dificuldades é Giovane de Paula. O jovem de 20 anos é morador de Apucarana e se desloca até Londrina todos os dias para participar dos treinos. "Acordo às 4 horas e pego quatro ônibus para vir e quatro para voltar. Fico mais ou menos 2h30 (dentro do ônibus) por dia", relata o paratleta.
De Paula teve uma evolução rápida na equipe. Disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro em 2015 e hoje, três anos depois, tem um dos três melhores tempos de paracanoístas da categoria KL3 (com amputação de uma das pernas) no País. "O atleta, quando chega ao nível deles, com o objetivo que eles têm, (o esporte) acaba virando o trabalho. O nível é muito alto, o objetivo é Mundial e Paralimpíadas. Eles treinam em período integral, tem treino de tudo, de remo, de natação, preparação física e descanso. Eles precisam se preparar para isso: no nível deles, esse é o trabalho", afirma Gelson Moreira, treinador da equipe.
Todos os integrantes da equipe de paracanoagem de Londrina disputam a Copa Brasil nos dias 7 e 8 de abril, em Curitiba. A competição vale vaga no Mundial da categoria, que será disputado em agosto na cidade de Montemor-o-velho, em Portugal.
Com supervisão de Fábio Galão
Editor de Esporte


