O instrutor Marquinhos levanta os olhos, analisa, espera pelo momento certo; enquanto o aluno tomado pela ansiedade encontra-se a postos, como numa largada de prova de 100 metros rasos, para iniciar a corrida morrote abaixo... Subitamente uma rajada de vento mais forte varre as araucárias e o campo da pequena Vila Rica, a 20 quilômetros de Caxias do Sul-RS. ''Agora!!'', grita o professor, e o iniciante arranca com passadas fortes e desajeitadas na irregular ladeira de pasto... Os braços devem estar levantados, abertos, com o propósito de empinar a enorme pipa que se levanta às costas. Quando a vela encontra-se acima da cabeça, é hora de puxar os batoques (alças que comandam parapente) para baixo e aguardar pelas passadas no vazio... O procedimento infla as células da vela de ar e promove a decolagem. Leveza! Apesar dos segundos contados, estes primeiros vôos nos enchem de emoção: a breve sensação de flutuar no ar contamina os principiantes. Experimenta-se uma pequena amostra do verdadeiro vôo da montanha...
Após o pouso, na base do pequeno morro da escola, os aprendizes voltam carrregando o parapente nas costas com o sorriso estampado na face, loucos por mais uma dose. Domenica, filha de João Tcacenco, vulgo 'Bafo', pioneiro gaúcho da modalidade, conta que o prazo para o batismo na montanha depende muito da dedicação e aprendizado de cada aluno. E lembra: ''Certa vez, um argentino chegou com vontade e em sete dias seguidos no morrote, conseguiu seu primeiro vôo da rampa. Voltau para casa batizado.''
Uma vez que o iniciante aprende a decolar, pousar e dosar as curvas, ele parte para os vôos monitorados na montanha. Primeiro, ele realiza um vôo duplo com o instrutor, e depois parte para o solo sempre acompanhado pelas informações via rádio, com um monitor seguindo-o desde a rampa e outro no pouso. Em Nova Petrópolis, município vizinho a Caxias do Sul (90 km de Porto Alegre), fica a rampa mais concorrida da região, a do Ninho das Águias, com 580 metros de desnível em relação ao pouso. Em feriados e fins-de-semana ensolarados, parapentes de asa deltas disputam numa confusa e colorida fila a almejada decolagem. O negócio é aproveitar logo as melhores condições termais, perto do meio dia, para garantir um bom vôo prolongado. Em minutos, o céu fica repleto de voadores zanzando de um lado para o outro atrás das térmicas, blocos de ar ascendente de ar quente; são as 'ondas' invisíveis que projetam as velas às alturas...
Estórias do Urubu
Personagem de destaque no mundo do vôo livre, o urubu atrai a atenção dos vorazes voadores desde suas primeiras experiências; já que procuram pelo mesmo objetivo: elevar-se sem esforço pelas correntes termais. Como forte referência, o urubu acabou batizando um dos picos, colado ao Ninho das Águias, que teve sua descoberta de modo atípico... No mínimo divertida!
Dois pilotos de asa, caxienses, Barão e Cleverson, no final da década de 80, procuravam uma casa ou apartamento perto da rampa de Nova Hamburgo, já que não perdiam um fim de semana sequer no pico. Certa vez numa pizzaria, comentando suas inquietudes numa roda de amigos, um colega respondeu-lhes que venderia parte de suas doze hectares de terra nas redondezas do Ninho das Águias. Consumou-se o negócio antes mesmo da visita dos novos pretendentes ao terreno em questão. Precipitada decisão. O vendedor mudara-se na semana para o nordeste e o terreno resultara difícil de ser encontrado, no meio de um morro íngreme de mata fechada. ''Compraram um pedacinho do céu'', divertia-se a tribo...
Com o mapa e facão na mão, nossos heróis investiram várias vezes ferrenhamente em busca do principal marco divisor de sua parcela: um objeto fálico escondido no meio do mato... Era uma pedra comprida mais duas menores em sua base colocadas há mais de 30 anos pelos antigos proprietários. Até que chegou o dia da alegria... Eles encontraram! Hoje o Pico do Urubu, localizado no mesmo morro do Ninho das Águias, é uma área nobre para estes voadores. Com quatro cabanas rústicas de madeira, estes felizardos gaúchos desfrutam com suas famílias a oportunidade de decolar do quintal de casa... Sentados de frente a um visual desconcertante da Serra Geral, eles lembram, às gargalhadas, da aventura do descobrimento de seu pico; hoje, restrito aos amigos. Enquanto nos conta a façanha, Barão pára e acompanha a linha no céu do primeiro urubu do dia. A coceira e a fissura começam a consumi-lo. '''Tá na hora de voar...''

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