Com uma Yamaha 535, a paranaense Valéria Farias realizou um sonho: atravessar o país sobre duas rodas. Foram 29 dias para vencer os 8.200 quilômetros do trecho Curitiba-Belém-Curitiba, atravessando regiões de exótica beleza e de contrastes culturais – Serra do Mar, Planalto Central, Sertão e as isoladas belas praias paraenses.
– Foi tudo muito mágico... Quando saía de Belém, atravessando numa balsa o Rio Guamá, eram cinco da manhã, ainda escuro, e bem na minha frente brilhava no céu o Cruzeiro do Sul. A beleza e intensidade de seu brilho demoraram em se desvanecer com a luz vermelha da aurora -descreve Valéria, lembrando um dos momentos marcantes de sua viagem.
A viagem de ida durou cinco dias, nos quais a motoqueira percorria em média 700 quilômetros diários. O fato de ser militar – é 3º sargento do Exército – a favoreceu nas paradas noturnas para descanso em unidades militares, nos chamados hotéis de trânsito, onde obtinha todo apoio e informações sobre sua rota de viagem. A primeira noite foi em São José do Rio Preto (SP), a 750 Km de Curitiba.
BR-153: A rodovia de ninguém
A curiosidade e receptividade das pessoas ao longo de todo o percurso confortavam a motoqueira que, ao viajar sozinha por esse mundão, naturalmente sentia insegurança. A BR-153, Transbrasiliana, é uma das estradas mais assaltadas do país.
– Lembro que a partir de Minas Gerais, quando o trânsito aumentou em função dos veículos que vinham de Belo Horizonte e do litoral, os caminhões só andavam em comboios, agrupados para melhor se proteger e intimidar os ladrões de carga - conta a aventureira.
Foram vários os conselhos persuadindo Valéria a fazer meia-volta. Certa vez, numa parada em um posto de gasolina, um senhor admirado chegou a chamá-la de louca e irresponsável, pois com sua família ele apenas se arriscava a viajar naquela estrada por poucas distâncias – e sempre de dia.
A determinação e alegria de desbravar o Planalto com sua moto, porém, eram mais fortes em Valéria:
– O cerrado é lindo, imenso. A pradaria amarela estende-se a perder de vista. Não há sinal de vida. Carcaças de animais ‘adornam’ a beira da estrada. As fazendas são enormes; não se vêem carros nem bois. Não há casas na beira da estrada, e as sedes das propriedades devem estar a alguns quilômetros, planalto adentro.
Ainda bem que a Belém-Brasília é bem servida de postos – a cada trinta quilômetros aparece um. A moto não tem muita autonomia, e a gasolina suja e adulterada fez com que a reserva do tanque não funcionasse, deixando Valéria na mão em duas ocasiões.
Os vários brasis
As diferentes culturas e etnias marcaram a viagem de Valéria. Ela conta:
– Os goianos são fácil de identificar: são morenos, de fisionomia muito parecida. A partir de Tocantins comecei a encontrar o traço nordestino. E em Belém os forasteiros são facilmente reconhecidos - ela descreve Valéria.
A gastronomia variou muito em toda viagem. Apesar de não se arriscar, limtando-se a sucos e pão-de-queijo, com o intuito de prevenir-se de mal-estares, a motoqueira observou a diversidade de frutas em Frutal (MG), em Belém (açaí, cupuaçu e muruçi), os temperos picantes e sopas degustadas no calor das noites do cerrado e o frango ao molho oferecido nos precários restaurantes das estradas do Norte do País.
Um prato típico de Belém é o Manissoba, carne de boi condimentada com raízes cozidas durante oito dias. Nas feiras da cidade, conhecidas como Zero Peso, encontra-se de tudo.
Hospitalidade
A hospitalidade do brasileiro surpreendeu a paranaense. Em várias ocasiões, famílias que nunca a haviam visto abriram as portas de suas casas e acolheram Valéria com extrema gentileza. Nas paradas em postos de gasolina e restaurantes, as pessoas se aproximavam, conversavam e pediam uma foto junto à aventureira e sua moto.
Numa noite de forte chuva, no vilarejo de Jacilândia (PA), Valéria parou em uma delegacia solicitando abrigo para sua moto. Durante a conversa, a paranaense pergunta:
– Tem alguém preso?
Como a resposta foi negativa, pediu para dormir em uma das celas, que, apesar de escura, propiciou uma boa e segura noite de sono.
Na saída, o acidente
Certo que toda aventura oferece adrenalina e grandes riscos. Valéria experimentou o pior acidente de sua vida. Ao pegar o caminho de volta, a 160 quilômetros de Belém, a surpresa:
– Na entrada de uma ponte, um ciclista atravessa de repente na minha frente. Só deu tempo de apertar o freio e gritar ao mesmo tempo: ‘Nãão!! Saaai!!’
A batida foi tão forte que a motoqueira demorou para dar-se conta do que tinha acontecido. As pessoas que vieram em socorro amontoaram-se e queriam levá-la ao hospital. Valéria, atordoada, perguntava onde estava a vítima, queria ajudar já que, como militar, tinha o curso de primeiros socorros. Até que uma senhora levou a mão de Valéria na boca, mostrando um profundo corte entre o lábio e o queixo. Logo percebeu que tinha o joelho ralado, com sua calça de couro rasgada e a bota aberta, com um profundo corte no pé.
Ao lembrar-se da moto, pediu ajuda para levantá-la, virou a chave... funcionou! Seguiu os que a ajudaram, apesar das insistências de todos para que fosse em um carro, até a cidade mais próxima, Capanema, onde pediu socorro ao Corpo de Bombeiros, que cuidaram da moto e prontamente a encaminharam para o precário hospital do povoado – não tinha raio X.
Felizmente o acidente não teve grandes consequências. Valéria foi transferida para o Hospital Geral do Exército, em Belém, onde recuperou-se em cinco dias. Ao receber alta, resgatou a moto em Capanema e logo já estava de volta à estrada.
– O meu maior medo era o de não poder completar a viagem - conta a motoqueira.
A volta durou os mesmos cinco dias da ida, mas foi mais extensa, com paradas em Palmas, Brasília e São Paulo, visitando velhos amigos – os motoqueiros formam uma tribo muito unida em todo Brasil. Como são frequentes os encontros e festas de confraternização, pilotos de todo o País fazem amizade e, consequentemente, têm pontos de apoio durante tavessias e aventuras.

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