Paranaense desafia força das africanas
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2014
Rafael Souza<br> Reportagem Local 
É de Nova Santa Bárbara, famoso reduto africano, a grande favorita para a São Silvestre 2014. Mas desta vez a personagem em questão não é queniana, muito menos etíope. Nascida na pequena cidade no Norte Pioneiro do Paraná, Joziane da Silva Cardoso, de 29 anos, é a principal aposta para quebrar um longo jejum nacional sem vitórias na principal prova de rua do Brasil, que já dura quase uma década.
Joziane já passou pela equipe Fila do técnico Moacir Marconi, o Coquinho no início da carreira, mas hoje está do outro lado e aparece como a principal rival das africanas. E o posto não foi conquistado à toa. Até então desconhecida do grande público, a corredora desencantou em 2014. A fundista ganhou nada mais nada menos que a Meia Maratona Internacional de São Paulo, em fevereiro, e a Volta da Pampulha, no início deste mês, duas das maiores provas do calendário brasileiro. Ela ainda foi a quarta colocada na Meia Maratona do Rio de Janeiro, na qual marcou o segundo melhor tempo do Brasil no ano, com 1h15min49s.
A corredora confessa que o bom retrospecto é surpresa até para ela mesmo. "Nunca imaginei. Sempre ficava pensando se um dia isso ia acontecer comigo. E hoje, tem hora que fico pensando: será que mereço mesmo? Estou muito feliz. Ano que vem, vou procurar fazer melhor ainda mais e incomodar mais essa mulherada", promete.
Antes de 2015, no entanto, Joziane tem mais um grande desafio. Apontada como a principal corredora brasileira no momento, a paranaense é a aposta para quebrar o jejum brasileiro de vitórias na São Silvestre, que já dura oito anos a última vitória de uma brasileira foi 2006, com Lucélia Peres. Ela sabe que a missão não é das mais fáceis, mas garante estar pronta para fazer frente às favoritas africanas.
"Ganhar a São Silvestre é algo que todos os atletas sonham. Vou fazer meu melhor, se der para subir no pódio, ótimo. Se não der também, estou bem tranquila. Tem que deixar as coisas acontecerem naturalmente, e se o meu melhor for o suficiente para subir ao pódio, bom, mas se não for, ano que vem tem de novo e vou me preparar para isso", afirma a corredora.
Para quem já quebrou um tabu este ano, ao acabar com o jejum de sete anos sem vitórias brasileiras na Volta da Pampulha, repetir a dose seria a realização de um grande sonho. "De repente. Quem sabe né?", brinca, soltando um sorriso tímido. "Tem hora que a ficha demora a cair. Sei que hoje estou entre as três melhores do Brasil, mas não fico pensando muito nisso, senão acaba atrapalhando um pouco", despista a corredora, que vai participar da São Silvestre pela terceira vez.
A boa fase de Joziane tem relação direta com sua mudança para o Rio de Janeiro. Lá, ela e o marido Claudenir da Silva Cardoso, que também é corredor, treinam com equipe Pé de Vento, uma das principais do país na atualidade, comandada pelo técnico Henrique Viana. "A partir do momento que comecei a treinar com ele, melhorou tudo. Em quatro meses, melhorei minhas marcas no 5, 10 e meia (21 Km). Ganhei provas fantásticas, resultados expressivos e com marcas boas", ressalta.
Se no dia a dia pouca coisa mudou, com as adversárias ela já sente que o respeito aumentou. "A gente fica nos hotéis da organização e fica olhando para as famosas. Antes, eu era mais uma só e agora não. Vejo que já tenho um respeito, vem muita gente conversar, dar os parabéns, tem sido bastante gratificante", revela.
Mas até conseguir um lugar de destaque no cenário nacional, Joziane ralou bastante, como ela mesmo gosta de dizer. Superar as quenianas não é nada perto do que a corredora teve que passar na infância. "Morava com meus pais no sítio da família. Só meu pai tinha salário, e aí era aquele dinheiro contadinho. Na época, era R$ 380 para manter cinco pessoas, a gente ia ao mercado e só levava o essencial. Pagava uma e a do outro mês já deixava marcada", relembra.
Colocar o primeiro par de tênis nos pés só foi possível graças ao esforço da mãe. "Lembro que minha mãe foi à 'cidade' e emprestou um tênis para eu começar a correr. Ela também criava frangos e vendia na cidade para a gente poder comprar tênis", conta. "Eu tinha um tênis só, que eu treinava e competia com ele, e vivia lesionada. Sem alimentação adequada, ia para as provas e passava mal, porque a gente não tinha condições. Ia para as provas e só desmaiava".
A pequena corredora já pensava em desistir quando conheceu o marido Claudenir. "Foi ele que me ajudou", reconhece. O tratamento com o neurologista Tsutomu Higashi, de Londrina, segundo ela, foi o "empurrãozinho" que precisava para decolar. Desde o casamento, há 10 anos, Joziane sobrevive somente do atletismo. Ela e o marido vivem bem, conseguiram comprar uma boa casa, em Nova Santa Bárbara, e um carro. Os pais já não vivem mais no sítio, mas ela sonha poder ajudá-los.
"Tudo que sou é graças a eles, à educação que eles me deram. Sempre me apoiaram. Quando estou ganhando uma corrida penso sempre neles, é o que me motiva. Só peço a Deus que me dê forças para poder dar uma condição melhor para eles no futuro. Eles são tudo que tenho", encerra.


