PARANÁ CLUBE - Tricolor aposta em respeito e identificação
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2006
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O técnico Caio Júnior, questionado sobre sua volta ao Paraná Clube e o bom momento da equipe no Brasileirão, foi sintético ao explicar o sucesso do Tricolor em suas últimas investidas: ''O diferencial do Paraná Clube é aquela coisa dos times dos anos 80. Aquela coisa de vínculo, de identificação com o clube. Um ambiente familiar.''
E a pessoa emblemática para entender esse ''clima de família'' é o presidente José Carlos de Miranda. Sempre acessível, o dirigente faz questão de estar bem perto da comissão técnica, dos jogadores, dos outros membros da diretoria e funcionários do clube, se possível diariamente. E ele explicou à Folha alguns dos fatores que vêm ajudando e também impedindo o Tricolor de alçar vôos mais altos no futebol nacional e internacional.
Folha de Londrina - Esse ''clima familiar'' ajuda a deixar o grupo mais unido aqui no Paraná Clube?
José Carlos de Miranda - Com certeza. Desde 2004, nós nos pautamos por esse respeito humano e profissional com todos os funcionários do clube: atletas, treinadores, médicos, roupeiros, massagistas... Não é um tratamento empresarial. O presidente não é o dono do clube, não é o chefe. O presidente é aquele que coordena todos os trabalhos de uma forma mais amigável possível, mas nunca deixando de lado a questão da autoridade.
Folha - Caio Júnior disse que voltou a treinar, a convite do senhor, justamente por esse ambiente familiar e a identificação que ele tem com o time.
Miranda - O treinador tem que estar identificado com o clube, com a cidade, com o Estado. Nós dizemos que o treinador do Paraná Clube tem que ser aquele cidadão que na segunda-feira vai ter o que falar na padaria da esquina. Se o time ganhar ele vai lá para receber os abraços. Agora, se o time perder, o que tem sido difícil ultimamente, também tem que dar satisfações à sociedade. E o Caio se enquadra perfeitamente nisso. É um jovem, já passou pelo clube, foi atleta exemplar, foi pentacampeão com o Paraná. Foi o treinador das categorias de base do Paraná e depois promovido a técnico. Então, agora, quando tivemos a necessidade de contratar um treinador, nós seguimos esse princípio. Pesquisamos muito a 'ficha corrida' de nossos treinadores e o mesmo ocorre com nossos jogadores.
Folha - Que tipo de jogador hoje não interessa ao Paraná Clube?
Miranda - Muitos, muitos... Seria muito fácil falar... Foram muitos. Por exemplo, quando o Edmundo estava por baixo ele nos foi oferecido. Poderia ser um bom jogador, mas também poderia nos causar problemas. Não procuramos jogador que não se enquadra em nossa filosofia.
Folha - E o perfil que se enquadra?
Miranda - Nós procuramos a 'ficha corrida' dos jogadores. Não trazemos ninguém que tenha um passado nebuloso, que tenha cometido algum erro na carreira. Então, como todos aqui têm projetos e ambições... As notícias se espalham rapidamente e todo jogador sabe que o Paraná é hoje a melhor 'vitrine' do Brasil. Os salários são dentro da realidade do clube e o que é combinado é cumprido. É muito 'olho-no-olho'.
Folha - E o teto salarial do Paraná Clube, qual é?
Miranda - Não existe teto salarial no Paraná Clube. Mas ninguém ganha aqui esses números que falam por aí... É sabido que os jogadores mais antigos ganham mais, como é o caso do Flávio (goleiro), do Beto (volante e capitão), do Émerson (zagueiro), dos jogadores que estão há mais tempo e ganharam promoção. Não posso revelar os valores, mas pode ter certeza que não é nenhuma exorbitância.
Folha - E a folha de pagamento mensal?
Miranda - Recebi o mês de julho, em que gastamos R$ 459 mil com toda despesa de futebol. Veja que a despesa de futebol, muita gente não sabe, mas envolve categorias de base, há profissionais desde os juvenis, os juniores também são profissionais... Todos eles têm preparadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, além dos funcionários dos dois estádios que usamos atualmente.
Folha - E o quanto do dinheiro que o Clube dos 13 repassa consegue cobrir a folha de pagamento mensal?
Miranda - O Clube dos 13 é praticamente submisso à televisão. A televisão contrata o Clube dos 13, que faz uma distribuição do dinheiro e obviamente nunca estamos satisfeitos. O Paraná recebe R$ 3,960 milhões por ano. São R$ 330 mil, aproximadamente por mês, e temos que nos virar com R$ 200 mil de outra forma. Com publicidade, com vendas de jogos, com vendas de jogadores, temos que dar um jeito.
Folha - Com o título paranaense deste ano e o bom momento no Brasileirão, além da reconstrução do Estádio Durival de Britto, pode-se dizer que essa é a melhor fase da história do Paraná Clube?
Miranda - Com certeza, as estatísticas provam isso. Nunca estivemos nessa altura do campeonato com uma posição tão boa. E no futebol a única coisa que vale são os resultados. Só que não podemos esquecer dos problemas e precisamos estar sempre com os pés no chão. Sabemos que os outros clubes são adversários que têm mais 'bala na agulha'. Sabemos que Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Fluminense estão em momentos difíceis mas têm 'bala na agulha'. E nós não temos, temos que ter trabalho.
Folha - E com relação à volta dos jogos na Vila Capanema, a partir do dia 20 de setembro, e aos projetos para 2007?
Miranda - A volta à Vila Capanema é uma reconstituição, uma volta à 'Terra Prometida', uma questão histórica e cultural. Aumentaremos o público, é um estádio central, o torcedor não precisa pegar dois ônibus para chegar aqui e pode vir a pé. Em relação a 2007, o clube, apesar de toda a grandeza social, vive de vitórias no futebol. Em 2007 vamos jogar na Vila e vamos tentar manter o elenco. Mas sabemos que todos os jogadores vão receber propostas tentadoras e no Brasil não tem como manter. Você veja o Flamengo, por exemplo, vendendo jogador que foi convocado (o meia Jônatas)... Enfim, não há como concorrer com o dinheiro da Europa e até da Ásia. O planejamento no futebol é sempre a partida seguinte. Administrativamente, o objetivo é manter os jogadores e voltar à Vila.


