Para ONG, reação tardia de atletas ainda pode gerar mudanças na Copa do Qatar


ALEX SABINO
ALEX SABINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diplomata por seis anos, ex-diretor da Anistia Internacional e fundador da FairSquare, ONG que realiza pesquisas e promove trabalhos com políticas de direitos humanos, James Lynch afirma que a reação recente dos jogadores de futebol foi bem-vinda. Se não deverá ser capaz de mudar a sede da Copa do Mundo de 2022, poderá ao menos provocar mudanças.

Em partidas das Eliminatórias europeias no fim do mês passado, seis seleções entraram em campo com faixas ou camisas que pediam respeito aos direitos humanos. Era um recado ao Qatar, que vai receber o Mundial em novembro e dezembro do próximo ano.

Reportagem do jornal britânico The Guardian revelou em fevereiro que, desde 2010, quando o país recebeu o direito de sediar o torneio, mais de 6.500 trabalhadores imigrantes morreram em obras de infraestrutura. A maioria delas ligada à Copa do Mundo.

Como reação, o Tromso Idrettslag, time da primeira divisão da Noruega, fez um pedido formal à federação nacional para que boicote o evento.

Entre as seleções, não há pedidos de boicote, mas a noruguesa foi a primeira a entrar em campo com a mensagem sobre direitos humanos. Acabou seguida por Alemanha, Holanda, Áustria, Dinamarca e Irlanda.

Lynch trabalhou para o Foreign Office, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido, em países do Golfo Pérsico. Ele sabe que os qataris estão acostumados às críticas de organizações não governamentais, acadêmicos, pesquisadores e sindicatos. Então os protestos que apareceram em março foram bem vistos por terem vindo de atletas. Mas demoraram demais.

"Quando [as críticas] vêm dos jogadores que podem transformar a Copa em um sucesso é diferente. As denúncias [quanto às condições de trabalho dos imigrantes no país] começaram em 2013. Neste tempo todo, a voz que se absteve foi a do futebol. Atletas, clubes, federações e patrocinadores ficaram em siêncio. Agora isso muda pela primeira vez. Pode ter um efeito. O Qatar terá de encarar isso", argumenta Lynch.

Na avaliação da FairSquare, os próximos 12 meses serão cruciais para a comunidade internacional verificar o quanto o Qatar está disposto a mudar. O governo do país promoveu alterações na legislação trabalhista, mas encontra forte resistente entre empresários e na elite econômica local.

Um dos itens não investigados e que não recebeu a devida atenção, de acordo com Lynch, é o número de imigrantes mortos em obras de infraestrutura conectadas ao torneio.

"O governo não se preocupou em entender por que as pessoas morrem. Muito pouco aconteceu [na investigação das causas]. Estamos em uma situação em que centenas e centenas de pessoas morrem em circunstâncias não explicadas e são citadas apenas causas naturais ou ataque cardíaco", afirma.

Nos últimos dois anos, a ONG enviou cartas e relatórios ao presidente da Fifa, Gianni Infantino. Alertou quanto ao problema, mas não recebeu nenhuma resposta.

No início do segundo semestre de 2021, a FairSquare deverá publicar relatório sobre como operários imigrantes deveriam ser recrutados e que políticas trabalhistas poderiam ser empregadas em nações do Oriente Médio.

"Dissemos a Infantino que havia um relatório das Nações Unidas sobre racismo no Qatar. O documento aponta a questão de como a discriminação racial no país é estrutural. A extratificação da sociedade e da economia é baseada na raça e isso coloca pessoas em situaçao de vulnerabilidade", diz Lynch.

O governo árabe afirma que nos últimos anos aconteceram reformas significativas que beneficiam os imigrantes, maioria no país. Dos 2,8 milhões de habitantes, apenas 300 mil são qataris. Uma das alterações mais significativas foi abolir a kafala, mecanismo pelo qual o imigrante só pode trocar de trabalho se o atual empregador autorizar.

A opinião da FairSquare é que as mudanças aconteceram no Qatar por causa da Copa do Mundo e foram positivas. Precisam, porém, serem implantadas de verdade.

"Desde 2017, ocorreram reformas que mudaram o sistema, e o Qatar foi elogiado por isso. A questão é como elas serão implantadas. São apenas leis para mostrar ao exterior que estão fazendo algo ou há intenção de mudar a vida das pessoas? Há muitas interrogações quanto a isso. As instituições não estão funcionando e o que vemos é a comunidade empresarial do país reclamando, dizendo que são mudanças muito radicais", analisa o fundador da ONG.

Sediar a Copa do Mundo faz parte de um plano maior do Qatar. A nação quer ser vista como um destino turístico, um paraíso do desenvolvimento sustentável e espera desapegar sua imagem da extração de petróleo e gás natural. Lynch entende que, para a empreitada ter sucesso, os governantes precisam entender que a imagem internacional é essencial.

"O Qatar quer construir uma reputação. O futebol faz com que as pessoas se sintam conectadas. Não acho que eles tenham percebido ainda quanto essa questão [da imagem] é importante para o projeto e isso tem de ser manejado pelas instituições. É preciso observar que o Qatar está numa posição geográfica frágil [cercada de nações com quem tem conflitos em potencial]. Se eles precisarem de ajuda internacional, não seria melhor mostrarem uma sociedade mais aberta?", questiona.

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