Para Dunga, seleção de 94 foi exemplar
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sábado, 15 de abril de 2006
Marco Justo Losso<br>Agência Estado 
São Paulo - O volante Dunga sempre foi sinônimo de raça e liderança. Após a decepção da eliminação da Copa da Itália, em 1990, com a derrota do Brasil para a Argentina por 1 a 0, em Turim, o gaúcho entrava para a história como símbolo de uma geração que parecia estar destinada ao fracasso.
Quatro anos mais tarde, a Era Dunga foi deixada de lado, o volante anulou as previsões pessimistas e marcou época como líder da seleção brasileira que conquistaria o tetracampeonato no Mundial dos Estados Unidos. Em depoimento à Agência Estado, o ex-jogador, capitão do Brasil nas Copas de 90, 94 e 98, revela passagens importantes da sua Copa preferida.
''Acho que tudo começou em 90, quando perdemos na Copa da Itália. Aprendemos muito lá. Em 94, foi a reviravolta, não só do futebol, mas de tudo no Brasil. O País tem como referência a seleção de 94. Foi uma seleção que serviu de exemplo, de organização, de planejamento. O talento individual desequilibra, mas o futebol tem de ser planejado, organizado. O trabalho de 94 veio confirmar o que as seleções de 58, 62 e 70 tinham feito. Foi um time que passou a imagem da organização.
Dois momentos me marcaram no caminho para o Mundial dos EUA. O primeiro foi durante as Eliminatórias. Em amistoso com o México fomos muito criticados. Na Granja Comary ficamos até às 3, 4 da madrugada falando sobre os erros. Aquilo nos deixou muito unidos.
O outro foi em abril de 94, num amistoso em Paris (contra um combinado formado por Paris Saint-Germain e Bordeaux, que ficou no 0 a 0). O (piloto Ayrton) Senna foi convidado para dar o pontapé inicial. No gramado, ele disse: 'O Brasil será tetracampeão mundial neste ano.'
Mais tarde, no hotel, nos reunimos na frente do elevador e começamos a citar coisas que não podíamos deixar acontecer. Isso foi importante. Decidimos: agora é conosco, ele (Senna) não pode entrar e jogar.
Chegamos ao Mundial preparados. Todo o grupo mentalizou a seleção subindo a escada para receber o troféu. Pensávamos muito de forma positiva, no que poderíamos fazer, não no que poderíamos perder.
Na Copa, também dois momentos foram importantes. Sem dúvida, a partida contra os Estados Unidos, com dez em campo (Leonardo foi expulso), todo o estádio a favor deles, foi um destes momentos. Se não ganhássemos a Copa, a maioria do elenco não poderia voltar ao Brasil. No intervalo, o Parreira 'cantou' como a gente faria o gol que marcamos mais tarde. Daquele lado da área, com o Bebeto (autor do gol) e o Romário. Ele descreveu tudo.
As pessoas não lembram, mas era para ser um jogo fácil. Tivemos duas bolas paradas que poderiam ter decidido a partida. Aí veio o lance da expulsão do Leonardo. Acho que nessa hora todo mundo é importante, ninguém é dispensável numa seleção. Temos de parar de passar a imagem de que o jogador decide tudo. Tem de conhecer defeitos e virtudes do adversário. Contra os EUA, o Parreira foi criticado por ter colocado o Cafu na esquerda. Mas ele tinha um condicionamento físico excelente, o Parreira sabia que ele iria suprir a necessidade.
Eu me lembro muito bem do que ele (Parreira) falava para nós. 'É preciso se doar por inteiro. Se a gente se doa por inteiro, vai ter o resultado por inteiro.'
O outro momento crucial foi contra a Holanda. Quando viramos para 3 a 2, com gol do Branco, não tinha mais jeito. Agora é nossa, não tem como voltar sem a taça para o Brasil.
Na final contra a Itália, estava tudo certo, a vida toda sonhei com este momento, era tudo o que a gente queria. Trabalhamos para isso. Ninguém fala, mas treinávamos sempre como se fosse um jogo de verdade. Às vezes, o treino era mais difícil do que a partida. O time que não jogava era melhor do que várias seleções daquela Copa. Ronaldinho e Viola no ataque, Zetti, Cafu, era bem difícil. Voltando à final, claro que tivemos medo. Mas coragem também, muita.
Muita gente fala do nível técnico daquela seleção. Mas quero que me digam um goleiro melhor do que Taffarel, um lateral que cruza melhor do que o Jorginho, um volante que marca melhor do que Mauro Silva. Com isso tudo, fomos para o jogo dizendo 'é hoje ou nunca mais'. A frase que me marcou muito naquela dia foi a do Muller. 'Larga os leões na Arena, é hoje.'''


