Papa-títulos, Trieste está afastado da briga
Kraw PenasOs cartolasOs irmãos Adarcisio e Adilseo: hoje responsáveis pelo TriesteNo dia 8 de junho de 1937 nascia, em Santa Felicidade (bairro de Curitiba), uma equipe fundada por descendentes de italianos, que viria a ser a grande campeã do futebol amador paranaense. O Trieste Futebol Clube venceu nove vezes a Taça Paraná, o que valeu à agremiação a conquista em definitivo dos dois primeiros troféus colocados em disputa pela Federação Paranaense de Futebol (FPF).
O Trieste nasceu justamente em função do seu maior rival no Estado, que por coincidência também é de Santa Felicidade: o Iguaçu (fundado em 1929). Como eles são mais antigos, alguns jogadores de baixo (referência ao local da sede do Trieste; a do Iguaçu fica no alto de Santa Felicidade) iam bater bola lá. Mas poucos tinham chance de jogar, conta Adarcisio Ferro, atual presidente do clube. Depois de sofrer com isso por alguns anos, alguns desportistas decidiram fundar o nosso clube. Trieste, o primeiro nome que surgiu, foi aceito de imediato pelos italianos.
Em consequência de dificuldades de caixa, o Trieste de Adarcisio está licenciado por dois anos da Taça de Prata, competição que o tornou famoso em todo o Estado como papa-títulos.
Fundado em 1937, apenas em 1953 o Trieste filiou-se à Federação. Até então, competia em torneios da região e amistosos. O primeiro presidente do clube, José Ferro, o Bepe, entusiasmou-se com os primeiros resultados do time, razão pela qual foi à FPF. E logo no ano seguinte, em 1954, disputamos a Série Verde e decidimos o título com o Batelzinho. Perdemos em campo, mas eles utilizaram jogadores de forma irregular e recorremos. Só há três anos é que saiu alguma coisa, dizendo que nosso recurso foi aceito e somos os campeões daquele torneio. Isso hoje pouco importa, diz Adilseo Ferro, presidente do Conselho Deliberativo Mas os títulos começaram a vir em 1964, quando o Trieste venceu o Campeonato Metropolitano, o que classificou a equipe para a Taça Paraná do ano seguinte. Era o início de uma série de nove conquistas.
A grande vitória mesmo foi em 1984, quando conseguimos armar um time quase imbatível, conta o ex-jogador Bertoldo Severino Muraro, o Veri, que por seis anos foi campeão estadual. A formação era Kulik; Gilmar, Mauro, Veri e Catine; Candi, Flávinho, Lara e Pimentel; Emerson e Esquerdinha. Essa equipe foi campeã dois anos seguidos, com muita competência, completa Veri, que jogava tanto de lateral-direito, como de zagueiro.
Adarcisio Ferro fala com muito orgulho do Trieste: Revelamos bons jogadores para o futebol paranaense. O principal deles foi o Joel Mendes, que saiu de nossas categorias de bases para o Coritiba. Celso Cordeiro foi para o Seleto e depois São Paulo e Botafogo-SP. O União Bandeirante levou Paulo Roberto, um centroavante que passou pelo Atlético e depois foi jogar no México. O Atlético aproveitou Genival (meio-campo) e Kulik. Candi, médio-volante foi para o Colorado e Valdo para o Britânia.
Hoje, muita coisa mudou: Sem dinheiro não se faz nada, diz Adilseo. Antes a gente tinha alguma ajuda e as rendas davam para cobrir parte das despesas. Famílias inteiras vinham ao estádio. A gente podia analisar a renda até pela venda de cervejas. Em 64/65 ocorreram partidas em que se vendeu até 140 caixas, conta Adilseo.
A falta de apoio e de dinheiro levou o Trieste a se licenciar: Não foi uma decisão minha. Quis ouvir toda a diretoria e o Conselho Deliberativo e em conjunto votou-se pelo afastamento nesse período (97/98). Mas pretendemos retornar com tudo ao final dessa licença. O Trieste voltará a ser um grande vencedor, promete o presidente.
Mas o que houve com a torcida? Adarcisio arrisca um palpite: Hoje o pessoal quer saber mais de praias e outras atrações que a cidade oferece. A rivalidade de antigamente também era um fator positivo. No crescimento dos dois times italianos (Trieste e Iguaçu), outros clubes procuraram melhorar, como é o caso principalmente do Fanático, de Campo Largo, e depois o Vila Fanny, que cresceram, tornando a disputa mais interessante e levando público aos estádios, analisa Adarcisio.
Como não poderia deixar de ser, alguém no clube tinha as suas superstições. O presidente Bepe era o principal. Veri conta que ele chegava aos jogos sempre com muita antecedência. Eu também gostava de chegar cedo e várias vezes vi o Bepe andando nos gols e jogando alguma coisa junto às traves. Um dia ele se atrasou e, à saída do vestiário, me pediu que jogasse nos gols umas folhas pontudas e secas de pinheiro bravo. Não é que dava certo? Sempre que ele fazia isso, a gente não perdia, relembra Veri. Bepe parou, a superstição desapareceu: Aí as vitórias eram na bola ou na raça, finaliza Veri.
O Trieste foi bicampeão em 64/65; tri em 69/70/71; outra vez bi, em 84/85; e campeão em 88 e em 90. Seu estádio é o Francisco Muraro, fundador que cedeu terreno para a construção do campo e da sede do clube. (I.C.)





