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m de leitura Atualizado em 01/04/2022, 11:01

Palavras têm de ser mais importantes que armas, diz técnico argentino que lutou nas Malvinas

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de abril de 2022

ALEX SABINO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando se aproximava da barreira instalada pelos ingleses em Puerto Argentino, um garoto de 19 anos chamado Omar De Felippe chorou.

Era um misto de raiva e indignação. Ele e outros companheiros haviam passado por tantas privações, sofrido tanto para aquilo? Pelo protocolo da rendição, todos os soldados deveriam entregar suas armas. De Felippe decidiu que não faria aquilo. Tirou dos ombros a metralhadora que carregava e a atirou em um lago da região. Quando chegou ao posto instalado pelos britânicos, estava desarmado.

"Era um trajeto de cinco ou seis quilômetros. Você tem muitas sensações em um momento assim. Jogar o armamento [no lago] teve algo a ver com a nossa rebeldia e com tudo o que acontecia. Depois de sofrer tanto com o frio e com a fome, tudo o que fizemos terminou em nada. Não deixamos de ter orgulho, mesmo assim", diz ele à Folha de S.Paulo.

Puerto Argentino é a denominação do país sul-americano para o que os ingleses chamam de Stanley, a capital das Fauklands. Os argentinos as chamam de Ilhas Malvinas. Neste sábado (2), serão 40 anos do início do conflito entre os dois países pelo arquipélago no Atlântico Sul.

"Sou Omar De Felippe, veterano de guerra e treinador de futebol", se identifica nesta ordem o ex-jogador e hoje em dia técnico de 59 anos.

É nesta época do ano que as lembranças ficam mais vivas. O espanto de quando recebeu o telegrama, apesar de não ser uma surpresa de que estava convocado para se apresentar ao Regimento 3 da Infantaria em La Tablada. A viagem em 9 de abril para as Malvinas. A chegada 24 horas depois. Os dias de frio e a falta de comida que obrigou companheiros de regimento a ir em busca de animais que pudessem ser mortos para servirem de alimento.

O retorno e o medo de como seria recebido após a rendição argentina. As donas de casa que saíam as ruas para pedir qualquer souvenir da guerra que pudessem guardar como recordação.

Sentar-se na calçada com uma lata de comida armazenada pelo governo (que acreditava na longevidade do conflito), abri-la com a ponta de uma baioneta e comer sem garfo ou faca. Apenas com as mãos.

Neste ano, as recordações se confundem para ele com as imagens da Guerra da Ucrânia que assiste pela TV.

"É uma loucura. A Guerra das Malvinas foi diferente porque sempre houve respeito aos civis. Lá [na Ucrânia] a população civil está no meio do conflito, sofrendo, e é lamentável ver o que estão sofrendo mulheres e crianças. Ver os rostos das crianças é uma dor muito grande, a quantidade de gente obrigada a deixar seu país e que sofrem sem ter o que comer, onde dormir, não ter futuro. Oxalá que isso possa terminar rápido e que as palavras sejam mais importantes que as armas. É para isso que serve a política e ela está falhando", protesta.

O conflito nas Malvinas durou dois meses. A aposta do general Leopoldo Galtieri, então presidente argentino, era que o país invadiria as ilhas e os britânicos não se dariam ao trabalho de tentar recuperá-las. Seria uma vitória militar que também teria efeitos políticos na nação sul-americana que vivia uma crise econômica.

Quase deu certo. Assessores da primeira-ministra Margaret Thatcher a aconselharam a esquecer o assunto. Ela rejeitou a sugestão e decidiu reagir. Os territórios são até hoje britânicos. Foram 649 mortos no lado sul-americano e a frase "as Malvinas são argentinas" entraram no subconsciente da população.

"Esta é uma data muito especial. Traz muitos significados que têm a ver com a convivências nas ilhas, com os combates, ser reincorporado à sociedade e conviver novamente em uma situação de paz. Hoje podemos contar isso e sempre tratei de não esquecer os verdadeiros heróis que são os que ainda estão nas Malvinas", completa, se referindo aos mortos.

Ele passou vários anos sem querer contar sua história. Lembra que sua mãe nunca quis saber o que viveu na guerra. Mas seus companheiros de Huracán, clube em que havia se profissionalizado, sim. Foi ao relatar-lhes o que viveu que Omar De Felippe começou a exorcizar os fantasmas e conseguiu continuar com sua vida no futebol.

Como defensor, teve carreira com passagem por pequenas equipes após deixar o Huracán, em 1985. Passou por Arsenal, Once Caldas (COL), Villa Mitre e Olimpo. Destacou-se como treinador. Comandou equipes importantes do país como Independiente, Vélez Sarsfield e Newell's Old Boys.

De Felippe virou também uma figura respeitada por todas as torcidas. Quase nunca é vaiado pelos adversários. Sua condição de veterano de guerra o coloca em patamar diferente em relação aos companheiros de profissão. É visitado em hotéis por torcedores de outros times que também foram às Malvinas e trocam experiências.

Recebe convite para visitar memoriais dedicados ao conflito e sempre comparece. Considera que isso foi o mais bonito que o futebol lhe proporcionou.

"É lindo receber esse afeto e entender que além da rivalidade futebolística há um respeito muito grande. É algo que levo dentro de mim. Valorizo muito esse respeito que as pessoas me dão e retribuo", afirma.

É um respeito que se estende ao Brasil, país que tem visto uma onda de técnicos argentinos serem contratados nos últimos tempos. Movimento que atraiu a curiosidade e interesse de De Felippe porque... Quem sabe não surge uma oportunidade?

"Não temos de nos separar [brasileiros e argentinos] porque somos irmãos. Claro que não se pode deixar de observar o poderio econômico do futebol brasileiro, o nível dos jogadores. O técnico sempre sonha com essa possibilidade, mas deve estar preparado. Quem vai para outro país deve abrir caminho para o próximo", receita.

Quatro décadas após o final do conflito, as coisas estão da mesma forma. As ilhas estão sob o controle britânico, e a Argentina reivindica os direitos sobre ela. De Felippe concorda que seu país deveria ter a posse das Malvinas, mas pede que isso seja feito pela via diplomática. Sem conflitos armados. E pede que que o mesmo valha para a relação Rússia-Ucrânia.

"Há que se seguir insistindo pelos caminhos pacíficos, sempre se tendo em conta que uma vida é mais importante do que qualquer questão. A Argentina precisa continuar insistindo com isso e esperar que em algum momento a parte diplomática triunfe sobre a guerra", conclui.