Áureo Nogueira
De Londrina
A via crucis que o outrora respeitado Fluminense inicia hoje em Nova Lima, Minas Gerais, diante do Vila Nova local, na tentativa de deixar o vexaminoso posto de integrante da terceira divisão do futebol brasileiro, será acompanhada com atenção, em Londrina, por pelo menos duas pessoas: o professor Reynaldo Ramon e o jornalista Milton Cassitas.
E engana-se quem imagina ser pequeno o número de torcedores do Fluminense na cidade. Por razões óbvias, podem até não andar por aí propagandeando a sua paixão clubística, mas, de acordo com levantamento realizado em agosto de 1995 pela Canadá Pesquisas, 0,8% da população – cerca de quatro mil pessoas – tem o Tricolor das Laranjeiras como time do coração.
– Sempre fui doente pelo Tricolor, desde menino. Agora, meus amigos brincam dizendo que, hoje em dia, tem mesmo de ser doente para torcer pelo Flu - admite o jornalista.
– Sou do tempo em que ser tricolor era a maior facilidade. Cantávamos com toda a energia e orgulho o refrão do nosso hino: ‘Sou tricolor de coração; sou do time tantas vezes campeão!’ - emenda o professor.
A derrocada do Fluminense começou em 96, quando caiu para a Segunda Divisão. Por conta de sua tradição e de uma ‘‘virada de mesa’’, o clube foi mantido na elite do futebol. Mas, no ano seguinte, não foi possível segurá-lo. O Flu voltou a cair e viu-se obrigado a disputar a Série B em 98. Para aumentar ainda mais o martírio tricolor, foi novamente rebaixado – para a terceirona.
Nos últimos anos, a situação do Fluminense é tão ruim que Milton Cassitas não conseguiu convencer nem as filhas a torcerem pelo tricolor carioca. Para desespero do pai, Gabriela, a filha mais velha, de 16 anos, torce para o arqui-rival Flamengo. Marcela, a mais nova, de 14, optou pelo Corinthians. ‘‘Foi uma grande decepção quando a Gabriela me pediu uma camisa do Flamengo’’, confessa Cassitas.
O jornalista atenua a decepção reconhecendo que é necessário ter bom time, que conquiste títulos, para convencer novos torcedores. ‘‘A influência da mídia, sobretudo da televisão, é quase absoluta. Por isso, os times da moda ampliam a legião de torcedores. Os outros, nem os pais mais fanáticos conseguem convencer os próprios filhos.’’
Reynaldo Ramon teve maior sorte. Seu único filho, Reinaldo Ferraz Ramon, de 42 anos, é do tempo em que o Fluminense ainda ganhava. ‘‘O tricolor é muito charmoso e, com o time que tinha, foi fácil seduzir o filho’’, diz o professor, lembrando dos tempos em que o Flu contava com estrelas como Gérson, Paulo César Caju, Rivellino, Romerito e o Casal 20 Assis-Washington.
Tanto Cassitas quanto Ramon mantêm um verdadeiro arsenal de souvenirs tricolores – de camisa a bandeira, passando por chaveiro, caneca de chope e roupas de cama. Reynaldo Ramon tem até um bilhete assinado pelo ex-presidente do Fluminense Manoel Schwartz. ‘‘Um amigo encontrou o presidente no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, e disse que conhecia um londrinense fanático pelo tricolor. O presidente mandou uma saudação, que guardo com carinho.’’
Apesar do constrangimento provocado pela gozação de torcedores dos outros clubes, os tricolores mostram resignação e mantêm a esperança na reabilitação.
– O que perdemos em campo vamos conseguir recuperar dentro do campo - aposta Cassitas.
– Seremos o único clube brasileiro campeão de todas as divisões do futebol nacional - acrescenta Ramon.

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