Paixão à distância
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 1998
Claudemir Scalone, Ed Carlos Rocha e Edmundo Inagaki 
Eles partiram da Europa, cruzaram o Oceano Atlântico e fincaram raízes no Brasil, deixando parentes para trás. Aqui, constituíram família e adotaram o País como segunda pátria. Apesar de visitar o país de origem esporadicamente, os imigrantes não pensam em voltar. Entretanto, mantêm ainda algum elo com a pátria-mãe. Os homens, principalmente, mostram que o futebol não tem fronteiras e mantêm viva viva na memória as lembranças do clube pelo qual torciam em solo europeu. Acompanhando as notícias pela TV ou jornal, os ardorosos torcedores sabem tudo o que acontece com o time do coração e fazem questão de ostentar com orgulho a paixão clubística.
Que o diga alguns estrangeiros que moram no Paraná e ainda mantêm laços com os times de seus países de origem. A milhares de quilômetros de uma partida ao vivo, esses torcedores via satélite alimentam a paixão através, principalmente, de TV a cabo e Internet, assistindo aos jogos e acompanhando os resultados.
Kraw PenasPaixão recolhidaOs espanhóis Cayo Cristobal e Saturnino Vordo: falta tempo para acompanhar melhor os times do coraçãoDa vizinha Argentina passando por Portugal, Espanha e Itália, tem sempre algum campeonato na mira dos torcedores estrangeiros. A busca por informações é uma verdadeira caça já que não existe regularidade das TVs pagas e abertas em transmitir os jogos.
Se é difícil acompanhar as partidas de seus times, os torcedores, no entanto, não abrem mão de pelo menos conferir os resultados. É o caso do cônsul-geral da Espanha no Paraná, Saturnino Hernando Vordo. Nascido em Logro¤o, no norte da Espanha, e morando no Brasil há 38 anos, ele não perdeu a paixão pelo Logro¤es - time onde atuou o zagueiro Cléber, do Palmeiras.
Mas como a equipe está na segunda divisão e, por isso, as informações são ainda mais escassas, Saturnino investe seu amor também no segundo time do coração, o Atlético de Madrid, que está na divisão principal. Sempre que posso assisto aos jogos ou aos melhores momentos que são transmitidos pela TV Espanhola. Quando não dá, vejo pelo menos os resultados e a classificação nos jornais, afirma o cônsul.
É o que faz também outro espanhol, Cayo Miguel Angel Martin Cristobal, diretor do Centro Cultural Brasil-Espanha. Dividido entre o Real Madrid e o Atlético de Bilbao, Cayo, que nasceu em Calahorra e vive no Brasil há 30 anos, diz que não se considera fanático por futebol, mas não deixa de se manter informado pela televisão.
Segundo ele, no entanto, falta tempo para acompanhar melhor os times. Só tenho tempo de buscar alguma informação nos finais de semana, quando fico viajando pelas emissoras de televisão procurando compacto dos jogos, ele conta.
Mas acompanhar à distância não é suficiente para alguns torcedores. É o caso do alemão Jurgen Reiter, que está no Brasil desde 96. Nascido em Bremen e torcedor do time da cidade, o Weder Bremen, ele diz sentir muita saudade de assistir aos jogos diretamente no estádio. A gente se apega ao time e quer sempre acompanhar os jogos ao vivo, diz.
Jurgen, que veio trabalhar no Brasil como professor de alemão para adquirir novas experiências, vai poder matar a saudade do seu time a partir do final do ano, quando voltará para a Alemanha. Enquanto isso, como já vem fazendo desde que chegou ao País, se informa sobre o Weder Bremer - que está na primeira divisão - com consultas constantes ao canal alemão Deutsch Welle, ESPN e à Internet.
Para os estrangeiros, mais do que saber como vai o time do coração, a busca por informações sobre o futebol da terra natal é também uma maneira de manter os laços com o país de origem. Essa é a opinião do argentino Alberto Rafael Perelli, estudante em Curitiba. Há 12 anos no Brasil, ele, que torce pelo Racing, diz que a identidade com a Agentina contina forte. É sempre bom você poder ter ligação com o país onde nasceu. No meu caso, o futebol é o melhor caminho para isso.
Emilio Botter, 46 anos, é um autêntico tifosi (torcedor) italiano. Funcionário do Consulado Geral da Itália em Curitiba, Botter nutri verdadeira paixão por dois símbolos da Bota: a Internazionale de Milão - time onde atuam os brasileiros Ronaldinho e Zé Elias - e a Ferrari, tradicional escuderia da Fórmula 1. Cada um tem o seu clube ou esporte preferido, mas todo italiano é um ferrarista por natureza, diz ele.
De acordo com Botter, são aproximadamente três mil cidadãos italianos no Paraná. Incluindo os descendentes, o número salta para dois milhões. Em todo o País, a comunidade italiana soma aproximadamente 22 milhões de pessoas.
Natural da província de Treviso, região norte da Itália, Emilio Botter vive no Brasil há 24 anos, ao lado de Lúcia Maria (sua segunda esposa brasileira) e das três filhas - Fernanda, Giovanna e Bruna.
Quando me mudei para cá, era difícil acompanhar as notícias da Inter. Tinha que aproveitar os telefonemas dos familiares ou então pedir para algum amigo mandar os jornais, que chegavam com vários dias de atraso, conta ele. Hoje em dia, tudo é mais fácil. Sintonizo a RAI pela Net (canal 38) e acompanho todo o domingo esportivo pela televisão.
No ano em que a Inter está completando 90 anos de existência, Botter está confiante nas possibidades do time no Campeonato Italiano - o clube foi campeão pela última vez na temporada 88/89. Acho que este ano temos quatro favoritos ao título: Lazio, Inter, Juventus e Milan, ele arrisca. Para você ter uma idéia da importância e da grandeza da disputa, basta dizer que são 144 estrangeiros participando da competição. Só a Inter tem 16 jogadores de outros países, vangloria-se Botter.


